Opinião

O totalitarismo liberal

09 de outubro de 2026 às 08 h45

Democracia não é sinónimo de liberdade. Democracia, em bom rigor, exige apenas a realização do ideal de autogoverno. Ora, como aponta Isaiah Berlin, o autogoverno não garante, por si, a liberdade da esfera humana privada, a liberdade negativa, que traduz a proteção absoluta do espaço da vida privada e a proibição da intromissão, invasão, domínio ou controlo estadual das esferas pessoais e privadas da vida humana.

Uma democracia formal, onde vigorem os princípios da representação, do multipartidarismo e da periodicidade breve do sufrágio universal, pode, não obstante, constituir um regime de controle, de vigilância e de domínio das vidas e das escolhas privadas.

Do mesmo modo, um tirano, que representa por excelência a facticidade da privação de autogoverno, pode, paradoxalmente, atribuir aos respetivos súbditos amplos espaços de liberdade e autonomia na condução e determinação das suas vidas individuais.

Posto que estes, evidentemente, não sucumbam à tentação ou se arroguem a pretensão do autogoverno.

Isto explica, em larga medida, aquilo a que o filósofo René Girerd designa por desejo de tirania. E permite compreender os fenómenos de histeria de massas que, não raro, acontecem aquando da morte de ditadores, suaves ou brutais. Abrindo nova luz, por outro lado, sobre a resistência anémica, quando não a absoluta rendição, dos cidadãos dos regimes ditos democráticos face a sistemas de controlo e de vigilância dos poderes estaduais – tornados fáceis pelas novas ferramentas digitais – que escrutinam de modo fino e permanente a sua vida pessoal, privada e mesmo íntima.

O cidadão democrático tornou-se um homem rastreável, identificável e localizável a cada instante, acompanhado e vigiado em todos os momentos.

Videovigilância, reconhecimento facial, procedimentos digitais e outros mecanismos policiais de controlo eletrónico transformaram o Estado dito demoliberal na emulação perfeita do mundo distópico e despótico de Orwell.

Vivemos, nas democracias contemporâneas, um momento novo onde a apologia desenfreada do liberalismo económico como lei de ferro das políticas públicas é acompanhada de uma vocação estadual de controlo total da vida dos seus cidadãos, justificada pela ideologia da transparência.

Estamos em pleno tempo de um totalitarismo liberal: o totaliberalismo.

Se, como canta Sérgio Godinho, não há liberdade a sério sem paz, pão, habitação, saúde, educação – ou seja, sem Estado Social -, não há liberdade de todo onde o anonimato da existência é substituído pela rastreabilidade non stop pelas instâncias e agências do poder.

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