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A neutralidade que se vota

21 de setembro de 2026 às 08 h45

No domingo, 27 de setembro, os suíços decidem sobre a “iniciativa da neutralidade”. Promovida pela associação Pro Suisse e apoiada pela UDC, quer inscrever na Constituição uma leitura estrita: nenhuma adesão a alianças militares, salvo em caso de ameaça militar direta ao país, e participação apenas nas sanções decididas pela ONU. A segunda sondagem da SSR/gfs.bern dá 63% contra e 34% a favor. Derrota provável e, ainda assim, um dos debates mais instrutivos da Europa.

Porque não se discute se a Suíça deve ser neutra. A neutralidade está inscrita na Constituição federal desde 1848 e ninguém a contesta. Discute-se outra coisa: se um princípio com quase dois séculos deve ser congelado em texto rígido ou continuar a ser interpretado à medida que o mundo se reorganiza. Mais de dois terços dos inquiridos respondem que fixá-lo enfraqueceria a segurança do país, por lhe retirar margem para cooperar. Um povo habituado a decidir por si concluiu que rigidez não é proteção: é imobilismo com boa reputação.

Convém lembrar o que a neutralidade sempre foi na prática suíça: um instrumento, não uma identidade. Foi ela que permitiu os bons ofícios, Genebra como sede da diplomacia difícil, a mediação onde mais ninguém era aceite. E foi a mesma flexibilidade que permitiu a Berna adotar em larga medida as sanções europeias depois da agressão russa à Ucrânia, sem deixar de se dizer neutra. Amarrar as sanções ao Conselho de Segurança seria entregar a um veto russo ou chinês a política externa suíça.

Há ainda o que a iniciativa não vê. A soberania de um pequeno Estado já não se decide apenas entre exércitos: passa por semicondutores, centros de dados, cabos e modelos de inteligência artificial alojados em jurisdições alheias. A Suíça pode ser exemplarmente neutra no plano militar e estar inteiramente alinhada, sem nunca o ter decidido, na infraestrutura que lhe organiza a cognição. Um artigo constitucional sobre alianças não toca nesse alinhamento. É essa a pergunta que fica por votar.

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