Do chão não passa!
A forma como as várias culturas se relacionam com o chão diz muito sobre elas. No Ocidente, o chão é fronteira; é o sítio de onde nos levantamos rapidamente, é o lugar que se limpa, que se evita e que se cobre de tapetes. Já diz o provérbio, com um certo alívio, que “do chão não passa”.
Na China, o chão é assumido como continuação do corpo. É superfície de espera, de conversa, de descanso. Um fantástico exemplo desta relação é a posição de cócoras. Em Portugal, se virem um senhor de cócoras no meio da rua, o que pensam? Ou perdeu as chaves de casa ou está com uma quebra de tensão, e rapidamente nos apressamos a oferecer ajuda, certo? Na China, o mesmo homem é só isso: um homem a descansar. Idosos, jovens, senhoras com sacos das compras, todos eles se agacham com uma naturalidade que nos faz parecer a nós, ocidentais, uns entravados com problemas de articulações.
Os chineses passam assim horas, a fumar, nas filas de táxi, à espera do autocarro, a olhar para o telemóvel, a conversar, a comer. E, quando se levantam, fazem-no num único movimento, sem o típico grunhido do ocidental a endireitar as cruzes. Os chineses aprenderam esta posição em criança, enquanto nós a desaprendemos quando inventámos a cadeira. Um ocidental que não pratique yoga avançado ou frequente um desses estúdios de pilates da moda faz cócoras durante trinta segundos e começa a reclamar dos tornozelos e joelhos, isto se antes não perder o equilíbrio e arriscar uma fratura no cóccix.
O mesmo acontece quando se deitam. Os chineses tradicionais preferem dormir de lado, virados para o lado direito, pois na medicina chinesa diz-se que o corpo é governado pelo yin e pelo yang e que essa posição protege o coração (órgão yang, que gosta de estar para cima) e acalma o fígado (órgão yin, que prefere a posição mais baixa). Dormem enrolados, numa posição fetal suave, muitas vezes sem sequer recorrer ao uso de almofada.
Nós, ocidentais, somos mais complexos. Investimos em colchões caríssimos, almofadas ortopédicas e lençóis com um número absurdo de fios. Dormimos de barriga para cima para não fazer rugas, de lado com uma almofada entre os joelhos para não desalinhar a bacia e de barriga para baixo se formos do contra… E, no dia seguinte, acordamos com dores e vamos ao osteopata.
Enquanto o Ocidente inventava cadeiras ergonómicas e aplicações que nos cobram os passos diários, o Oriente manteve a sabedoria simples de se agachar, de esperar com o corpo inteiro, de transformar o chão num lugar de pausa. Há algo de profundamente poético nessa humildade física: se o táxi tarda, eu desço e fico à espera. Sem drama. Sem pressa. Só o corpo a fazer o que o corpo sempre soube fazer e a responder à memória cultural.
