Matar a galinha dos ovos d’ouro
Vivendo fora de Portugal há década e meia habituei-me a escutar e ser interpelado sobre as virtudes turísticas do nosso país, assentes no clima temperado, riqueza patrimonial, beleza natural, gastronomia, afabilidade do povo e nos, não menos citados, sentimentos de segurança e tranquilidade, que, no todo, fazem de Portugal um dos melhores países do mundo para visitar e conhecer.
Sendo verdade que a segurança de um destino se mede nas estatísticas, também não é menos que, para quem decide onde passar férias, a escolha assenta sobretudo na perceção. Hoje em dia, mais do que nas parangonas nos jornais, através de vídeos (bons ou maus) que viralizam nas redes sociais. E essa diferença – entre a realidade dos números e a perceção – normalmente tem consequências económicas muito reais.
Portugal tem, ainda hoje, uma das suas maiores vantagens competitivas precisamente na imagem de país seguro, acolhedor e previsível. Não é um detalhe: em 2025, as receitas turísticas atingiram 29,1 mil milhões de euros e o contributo total do turismo representou 11,8% do PIB nacional.
É por isso que a sucessão de recentes episódios de criminalidade e insegurança, ainda que muito longe de caracterizarem a realidade global do país, não podem ser desvalorizados. Um destino turístico não compete apenas com base no preço, clima ou património. Compete também pela sensação de segurança que transmite. E essa sensação pode mudar mais depressa do que os indicadores objetivos.
A experiência internacional demonstra-o. Estudos sobre a Jamaica encontraram uma relação negativa entre criminalidade e chegada de turistas, particularmente relevante nos mercados europeus. Na África do Sul, investigações académicas identificaram a perceção de risco e a imagem de insegurança como fatores com influência nos fluxos turísticos. E no Médio Oriente, os episódios de terrorismo demonstraram como a insegurança pode provocar choques prolongados na procura turística. Sem falar no Brasil que recebe, apesar da sua dimensão e potencial, menos de metade dos turistas de Portugal por ano!
Destarte, Portugal não pode esperar para reagir quando os números começarem a cair. A segurança deve ser uma política económica, não apenas uma política policial. Porque reputações levam décadas a construir e podem deteriorar-se em poucos meses. De outra forma, matam “a galinha dos ovos d´ouro”, onde a perceção vale mais que a realidade!