Do mundo para Coimbraopiniao

Quando até os bombeiros param

30 de julho de 2026 às 10 h15

Há profissões que cada país aprende a olhar de maneira diferente. Em Portugal, os bombeiros são quase um símbolo do verão. Na Bélgica, onde os grandes incêndios florestais são muito excepcionais, o seu trabalho faz-se sobretudo entre ruas, edifícios e bairros. Talvez por isso a notícia da greve dos bombeiros de Bruxelas me tenha feito reflectir. Aqui, os soldados da paz são sobretudo uma força urbana – respondem a incêndios em edifícios, acidentes rodoviários, fugas de gás, inundações, tempestades, acidentes industriais e emergências médicas. São eles que acorrem quando uma cidade de mais de um milhão de habitantes precisa de ajuda.

A greve começou no Dia Nacional da Bélgica (21 de Julho) e prolongou-se durante cinco dias. No momento mais crítico, apenas 17% do efectivo operacional se manteve disponível. Os sindicatos denunciavam há muito tempo a falta de efectivos, a sobrecarga laboral e a falta de investimento num serviço que consideram funcionar no limite das suas capacidades. Depois de vários dias de negociações, o Governo Regional comprometeu-se a reforçar o recrutamento e a investir mais de 8 milhões de euros no corpo de bombeiros, permitindo suspender a paralisação.

Poucos dias antes, Bruxelas tinha assistido ao incêndio da torre OXY, onde morreram seis trabalhadores. A tragédia não esteve na origem da greve, mas tornou impossível ignorar o papel daqueles homens e mulheres que entram onde todos os outros fogem.

Talvez tenha sido isso que tornou esta paralisação diferente de tantas outras. Na Bélgica, as greves fazem parte da vida. Há dias em que os comboios não circulam, os aeroportos cancelam voos ou os correios deixam de distribuir cartas. Aprendemos a reorganizar horários, a trabalhar a partir de casa ou simplesmente a esperar. Mas quando são os bombeiros que param, o desconforto instala-se de outra forma.

Em Portugal, aprendemos todos os verões a admirar a coragem dos bombeiros perante incêndios sem fim. Em Bruxelas, onde as florestas raramente ardem, foi preciso que os bombeiros parassem para perceber que também aqui há emergências que não podem esperar. Talvez seja essa a maior ironia dos serviços públicos essenciais: quando funcionam bem, quase nos esquecemos de que existem. E talvez esse seja o maior elogio que lhes podemos fazer.

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Últimas

Do mundo para Coimbra

opiniao