Um Mundial (a)normal
Num mundo tão agitado, é quase irónico serem as razões económica a fazer com que esta seja o Mundial mais disfuncional de todos os tempos.
O desporto e as grandes competições raramente são completamente isentos de influência política, mas nunca o futebol enfrentou um desafio geopolítico tão complexo. Vamos por partes: o principal anfitrião principal está em guerra com um dos participantes, cuja equipas se podem defrontar na próxima fase.
Acrescente-se a coincidência de que os 3 coanfitriões estarem a meio de uma guerra comercial para a renegociação do acordo da área de comércio livre da América do Norte. Os impactos vão bem para lá destas tensões políticas e podemos estar a assistir à criação de um novo xadrez comercial. É uma completa reformulação da “economia” do futebol e também um dos exemplos mais visíveis de como algumas dos principais setores e grandes empresas operam.
Em primeiro lugar a escala: este torneio é gigantesco, com o maior número de jogos de sempre, a maior audiência televisiva de sempre e realiza-se na maior extensão territorial já vista, desde Vancouver à Cidade do México… é possível que a equipa vencedora tenha de percorrer uma distância equivalente ao diâmetro da Terra!
Mas considero que o mais marcante é a questão dos preços, com a introdução do sistema de “pricing dinâmico”, em que o valor do bilhete não é fixo, mas varia em função da procura. O Mundial 2026 é o maior teste de uma tentativa de alterar o mecanismo de preço em grandes eventos. A utilização de preços dinâmicos, foi já utilizada em bilhetes para concertos musicais e alguns eventos desportivos, mas nunca a esta escala e pode mudar a forma como desporto é vivido pelos adeptos. Neste momento temos bilhetes que excedem largamente os mil dólares para a fase de grupos e que para as fases finais já chegam ás dezenas de milhar.
Torna-se assim ainda mais difícil de estimar a receita total, mas alguns apontam para valores na ordem dos 7 mil milhões de dólares. Isto fará com que a receita anual média a FIFA se cifre em redor dos 4 mil milhões de dólares, ultrapassando o orçamento da Organização Mundial de Saúde…
A FIFA é um caso de estudo sobre corrupção e influência política, (lembremos a atribuição à Rússia e ao Qatar), mas está a tornar-se um laboratório da nova economia do desporto. A isto somemos a subserviência bacoca ao entregar de um Prémio da Paz a Trump e a complacência com desumanidade com que tantos foram tratados, e em particular o árbitro somali Omar Artan, nomeado pela própria FIFA. Tudo isto deveria levar a FPF reagir…
O silêncio deixa muitas questões, porque em 2030 receberemos o Mundial em conjunto com Espanha e Marrocos. Espero que os responsáveis da FPF, em face da disfuncionalidade atual, tomem as decisões para que consigamos retomar o espírito de festa, partilha e fair-play. Desejo muito a vitória do nosso país, mas não a podemos controlar. O que podemos é fazer com que o Mundial volte a ser normal, onde os protagonistas estão no campo e os adeptos, a razão de tudo, são tratados com respeito e igualdade.

