O 8 de dezembro na Universidade de Coimbra
Nas cortes de 1646 em Vila Viçosa, D. João IV proclamou Nossa Senhora da Conceição como Rainha de Portugal e verdadeira Soberana do país, atribuindo-lhe a coroa da Nação, que mais nenhum Rei Português poderia doravante envergar. Em 1645, seguindo o exemplo da Universidade de Paris, o Rei tenta instituir o Juramento à Imaculada Conceição na Universidade de Coimbra, tendo levado uma goleada num duelo teológico contra os Dominicanos apoiantes de S. Tomás de Aquino. (Perdeu por 34-2).
Sob pressão dos Franciscanos, no ano seguinte D. João IV invoca a táctica do “mas quem é que manda aqui?” e impõe por decreto-régio o juramento solene à Imaculada Conceição, levando a que muitos lentes Dominicanos fossem riscados da Universidade.
Não me arrogando eu a coragem necessária para imiscuir na debuta teológica, vou tentar focar-me na forma de como esta era vista pelos Estudantes. Ao longo de todo o século XIX, a Universidade realizava neste dia uma cerimónia, na Sala dos Capelos, onde eram laureados os melhores estudantes matriculados. A cerimónia começava com o habitual Cortejo Reitoral com a Charamela afinada tom e meio ao lado. Os Lentes sentavam-se segundo a cor da sua Sapiência e os alunos premiados na teia da Sala, onde esperavam a chamada do seu nome para irem receber o pergaminho. Findada a cerimónia, decorria um Baile de Gala nas salas da Reitoria.
A cerimónia era tanto prestigiada quanto satirizada. Os melhores alunos, já intitulados de “ursos”, e eram categorizados entre “ursos maiores” e “ursos menores” em virtude das categorias dos prémios. Já o Baile que se seguia, por ser restrito aos alunos laureados era intitulado como o “Baile dos Ursos” e amplamente satirizado. A sátira elevou-se tanto que os excluídos passaram a organizar, no Largo da Feira e paralelo ao Baile dos Urso, o Baile…dos Cábulas!
Outras edições caricatas deste dia ocorreram em 1862, quando a Sociedade do Raio de Antero Quental aproveita a cerimónia para abandonar a sala ruidosamente em protesto, aquando do discurso do Reitor Basílio Pinto (O “Czar da Borla”, como era conhecido pela Praxe); e em 1908, quando Bissaya-Barreto, ao ser chamado para receber o prémio de Matemática (apesar de ser Médico), recusa-se a levantar causando um embaraço protocolar em que lhe foram levar o diploma às mãos.
Tantas foram as desfeitas que manchavam, ou animavam, o dia que aquando da implantação da República e do fervilhar das veias revolucionárias do corpo discente, que não mais Reitoria retornou à realização desta festa de premiação.”

