Opinião: “O inverno está a chegar “

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O título evoca a obra “As Crónicas de Gelo e Fogo”, de R. R. Martin, e também, o título da primeira temporada da série da HBO Guerra dos Tronos, no entanto também se aplica à atual crise energética e às suas consequências económicas e sociais.
A presente crise energética é o resultado da escalada dos preços dos produtos energéticos e, ainda, do aumento das taxas de carbono que se também se reflete nos preços dos combustíveis, energia e matérias-primas.
A medida que as economias europeias foram desconfinando, assistiu-se a uma intensa competição, entre os países europeus, por mais e mais gás natural. O motivo desta competição encontra-se nas excecionalmente baixas reservas europeias deste combustível que, ainda é, vital para a produção de energia elétrica na europa. Acresce a este problema que a Rússia tem privilegiado o seu abastecimento como um vértice da sua política geoestratégica.
Refira-se que a União Europeia importa quase 90% de gás natural e, que este combustível gera mais de um quinto da eletricidade europeia, mais do que qualquer outra fonte de energia, exceto o petróleo.
A intensa procura tem, assim pressionado os preços do gás natural que subiu quase 500% num ano e quase 300% desde a passada primavera.
Segundo a REN data hub (outubro 2021 ), a Portugal quase 95% de gás natural chega por via marítima. O maior fornecedor é a Nigéria ( 50%) seguindo-se os EUA ( 21%), a Rússia ( 17%) e o Qatar ( 7%). Os restantes 5% chegam por gasoduto de Espanha vindos, principalmente, da Argélia.
Num documento com as perspetivas de abastecimento para este inverno, datado do início de outubro, publicado pela Rede Europeia de Operadores de Sistemas de Transmissão de Gás (ENTSOG), Portugal encontrava-se entre os dezoito países da UE com as reservas a 49,82%, a percentagem mais baixa da UE.
O inverno está a chegar, a temperatura diminui e é previsível que as consequências se agravem, pois haverá novo pico nos preços da energia. Veja-se ao este respeito o mercado de futuros ibérico da energia para o primeiro semestre de 2022 que se encontra quatro vezes acima do seu valor atual.
Esta escalada de preços já provocou graves efeitos na economia europeia, com os preços de eletricidade, petróleo, gás natural e carbono a aumentar e a refletirem-se diretamente, e de várias formas, nas famílias e em todos os sectores de atividade, não só no valor da fatura energética, mas também, na escalada dos preços dos bens de consumo e na diminuição da sua disponibilidade. Este facto poderá levar ao aumento de falências em sectores como os transportes e distribuição, e também em outros sectores de atividade, particularmente nas indústrias intensivas em energia.
Estamos já numa crise energética, e à beira de uma crise sem precedentes que vai requerer medidas sem precedentes.
Será esta a primeira crise energética da transição para uma economia de baixo carbono? Questiona e bem, Daniel Oliveira, ou terá a política de descarbonização da Europa sido “ingénua”? como também questiona Nuno Ribeiro da Silva, ambos no Expresso online.
As respostas a estas questões devem e têm de ser obtidas rapidamente, mas para já o alerta é geral. São, pois, necessárias políticas ad hoc imediatas, mas principalmente são precisas mudanças estruturais no sector energético nacional e europeu com a incorporação de musculadas políticas públicas nacionais e europeias, consequentes e duradouras, e que não penalizem sempre a fatura dos mesmos, garantindo-se assim que o processo de transição para uma energia limpa seja prosseguido e mesmo reforçado.
Esperemos um inverno ameno, caso contrário muitos países europeus, comprometidos com o Pacto Ecológico Europeu bem como com as medidas legislativas que a EU publicou, enquadradas no FIT for 55, poderão dar passos atrás, regressando-se ao carvão para a produção de energia elétrica, situação que colocará em causa os prazos da descarbonização europeia.
Esta tempestade perfeita agrava-se, entre nós, pela pobreza energética a que Portugal está votado. Segundo dados fornecidos pela Eurostat em janeiro de 2020, Portugal apresentava cerca de 19% da população em 2019, quando a média dos países da UE é de 7%.
Por fim uma sugestão que pode ajudar a reduzir a fatura do aquecimento, este inverno e nos próximos, aprovisione a sua casa de mantas de lã burel e/ou de cobertores de papa de Maçaínhas.
A economia da Serra da Estrela agradece e a Rota da Lã dinamiza-se.

Pode ler a opinião de António Veiga Simão  na edição impressa e digital do DIÁRIO AS BEIRAS 

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