Opinião: Espiritualidade

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Pouco a pouco, o tema da espiritualidade entrou nas nossas vidas. Sempre aconteceu em tempos de crise e não é de estranhar. Mas hoje, o espiritualismo impõe-se com grande racionalidade e sem o secretismo com que existiu durante as grandes catástrofes do século XX. Não se trata de religiosidade, e muito menos da referência a uma dada religião, mas também não as exclui (embora exclua naturalmente os fanatismos religiosos). Trata-se, sobretudo, de um estado interior que se pode cultivar em tempos de mudança.
É também inegável que a cultura oriental tem penetrado no Ocidente, onde as disciplinas da Meditação budista e do Yoga indú estão presentes e são praticadas. Na sua expressão mais simples, elas consistem em adoptar uma postura correcta e sentir apenas a respiração: o ar frio que entra pelo nariz e o ar, aquecido pelo corpo, que se expira lentamente. E hoje sabe-se que cada emoção tem um ritmo respiratório diferente, e que cada tipo de respiração pode induzir uma determinada emoção. Aquela que se cultiva durante a prática meditativa é semelhante à da alegria. Também se sabe que a respiração está implicada em várias perturbações mentais, desde os ataques de pânico, fobias e ansiedade, até aos estranhos estados dissociativos e mudanças de personalidade.
Os mais relevantes psicólogos americanos que, no século XX, estudavam as emoções, dedicaram-se, no virar do Século, ao estudo neurocientífico das práticas budistas e seus resultados. Foram precedidos por um encontro, em 1982, entre Richard Davidson e o Dalai Lama, a convite deste último, que lhe disse: “Você tem usado ferramentas modernas da neurociência para investigar ansiedade, medo e depressão. Porque não usa essas mesmas ferramentas para estudar bondade e compaixão, as qualidades positivas da mente?” Outra questão, nova para os neurocientistas, era: “Se as alterações do cérebro alteram a mente, não poderá também a mente mudar o cérebro?”
Desde então, não parou a colaboração entre neurocientistas e praticantes da Meditação. Pôde-se assim demonstrar que esta prática repetida produz de facto mudanças reais e permanentes do cérebro e sua actividade. E essa mudança está ligada à chamada “felicidade”, tanto quanto ela se pode medir. Em causa podem estar as atitudes de perdão, compaixão e empatia, mas também alguns estados de “iluminação”.
É difícil definir estes estados. Muitos falam de transcendência (estar fora de si), mas também de sincronização. Sincronização com os outros (imagine-se a acertar o passo com outra pessoa ou a fazer parte do público que assiste a um concerto e dança em uníssono ao ritmo da música), mas sobretudo sincronização com a natureza, nela incluindo animais, plantas, seres vivos, ou mesmo com os astros (dormir de noite e levantar-se com o sol significa que estamos em sincronia com a rotação da Terra). É interessante constatar que são as mulheres que, em maior número, se dedicam a estas práticas. Parecem fazê-lo com a naturalidade que a sua raiz telúrica e tendência cuidadora implicam. Seja como for, esta volta à natureza é decisiva para o futuro da humanidade e do planeta. Espiritualidade é talvez isso.

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