Opinião: A arte da moderação num tempo de extremos

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Na atividade política, como na vida de todos os dias, não é arte fácil a da moderação. Nos últimos cem anos, raros foram os lugares e muito breves os momentos em que ela pareceu dominar a realidade, quase sempre substituída, no confronto entre posições, pela exacerbação dos conflitos, das paixões e das convicções mais absolutas e imutáveis. Mesmo em períodos nos quais, nem que apenas fosse pela exaustão das consciências, se presumiria natural a instalação de alguma acalmia, como os que decorreram no imediato pós-Segunda Guerra Mundial ou a seguir à Queda do Muro de Berlim e ao fim da divisão bipolar do planeta. Aí, foi justamente o oposto que afinal ocorreu, com a projeção de novos antagonismos e certezas. E, no entanto, a sua afirmação manteve-se sempre um pressuposto essencial para assegurar a boa qualidade da vida pessoal e coletiva.

Moderação exprime, segundo o Dicionário Houaiss, «a virtude de permanecer na exata medida, o afastamento de todo e qualquer excesso», ou «comedimento, prudência, temperança». Todavia, a sua prática de modo algum pode ser confundida com a ausência de posições ou com a vacilação. Ser-se verdadeiramente moderado – isto é, ser-se capaz de ver todos os lados em presença e de os ajudar a completar-se, sem, por esse motivo, deixar de escolher uma posição, ou mesmo uma barricada – é, no fim de contas, muito mais difícil que optar por escolhas acantonadas, rígidas, incapazes de pactos e de cedências por se presumirem fundadas numa base científica capaz de as tornar ao mesmo tempo eficazes e infalíveis. Esta foi a escolha das doutrinas devedoras do pensamento único ou a dos movimentos fundados no sectarismo e na exacerbação das diferenças, que parecem, aliás, regressar em força nestas primeiras décadas deste século, por isso tornando a experiência da moderação particularmente necessária.

Numa das «Cartas a um amigo alemão», escritas entre 1943 e 1945 para tentar lançar as bases de um entendimento a ter lugar no mundo renovado que pudesse sair da guerra então em curso, mas cujo fim já se adivinhava, Albert Camus considerou que, bem mais que permanecer mergulhado no mesmo cenário de posições rígidas e extremadas que tinha conduzido ao conflito, era necessário construir pontes capazes de dar espaço, dentro de um novo quadro de paz, ao natural fluxo da diversidade humana. Todavia, de modo algum o escritor queria com isto dizer que, de forma a que essa paz se tornasse possível, os seres humanos devessem deixar de exprimir convicções, de se empenhar em causas, de combater pelo que considerassem justo e necessário, sublinhando que «o nosso mundo não precisa de almas mornas, precisa antes de corações ardentes que saibam dar à moderação o seu justo lugar». Isto é, Camus entendia que eram necessários cidadãos informados, convictos, corajosos, capazes de se baterem, ao trabalhar para um entendimento entre diferentes posições, por sociedades mais prósperas e progressivas, isentas, não de conflitos, mas de guerras assassinas como aquela que estava a decorrer.

A moderação é, neste sentido, uma arte, que como todas as artes precisa de habilidade e energia. É muito mais fácil escolher o caminho do acantonamento numa certeza, numa fé, numa ideologia, onde pode encontrar-se um sentido de pertença a um grupo ou a uma comunidade que partilha idêntico grau de certeza. Como é fácil também, aqui no sentido oposto, viver na indiferença, deixando para os outros a definição dos destinos que a todos dizem respeito. Em contrapartida, a moderação requer um esforço pessoal, por vezes solitário ou incompreendido, mas que é o único capaz de construir um espaço de resistência ao ódio e à incompreensão que hoje, mesmo nas democracias formais, parecem regressados à ordem do dia. Num ensaio de 1572, justamente sobre esta arte da moderação, Montaigne escreveu que da sua ausência resulta uma realidade «tão feroz quanto dispendiosa»: tantos anos depois, a sua chamada de atenção permanece válida.

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