Opinião – Era uma vez em… Portugal

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Na madrugada da última segunda-feira, no Teatro Dolby de Los Angeles, foram mais uma vez distribuídas as famosas estatuetas douradas.
A cerimónia teve, mais uma vez, o seu ponto alto com a atribuição do prémio para O Melhor Filme que notabilizou ‘Parasita’. Este filme sul-coreano fora-me recomendado por um amigo cujo bom gosto já comprovara vastas vezes e, só por isso, a sua qualidade não me surpreendeu mais. Assim mesmo, impressionou-me francamente e pareceu-me um justo vencedor do troféu mais apetecido, que, pela primeira vez, distinguiu um filme de língua não-inglesa e fez da obra de Bong Joon-Ho (agraciado com o Óscar para O Melhor Realizador) a maior estrela da noite.
Confessada a minha preferência para a categoria maior daqueles prémios, admito ter também apreciado as escolhas para Melhor Actor e Melhor Actor Secundário.
Já há alguns meses escrevera sobre o excelente desempenho de Joaquin Phoenix em ‘Joker’ e, não tendo nada escrito sobre a prestação de Brad Pitt em ‘Era uma vez em… Hollywood’, é conhecida a minha profunda admiração pelo trabalho do Tarantino, pelo que me escusarei de melhor justificar o meu contentamento pelo reconhecimento que aqueles dois mereceram.
Com intensidades diferentes, de ambos ressalta, porém, um semelhante tom de burlesco que muito aprecio. Gosto daquela espécie de caricatura, satírica e grotesca, que, a partir de qualquer assunto sério, avaliza uma boa dose de escárnio.
Ora, não há assunto mais sério do que o governo do nosso país e (para nosso infortúnio) também não haverá mote que melhor se ajuste ao espírito mordaz daquela nobre arte.
Mais a mais, em bom português, “burla” tanto pode significar “troça ou chacota” como há-de querer dizer “fraude ou vigarice”.
Dito isto, por cá, neste pequeno jardim à beira-mar plantado, não faltará material com elevado potencial burlesco (tanto por chacota como por vigarice).
A título de exemplo, para não nos entusiasmarmos excessivamente, deixemos de lado a sinistra satisfação da actual Ministra da Agricultura, Maria do Céu Albuquerque, que, em declarações prestadas em Berlim, garantiu que o coronavírus, que até então já fizera várias centenas de vítimas, “até pode ter consequências bastante positivas para promover as nossas exportações”.
E ignoremos também o facto de o Banco de Portugal ter usado um anúncio de jornal para notificar Tomás Correia, ex-presidente da Associação Mutualista Montepio, de um processo de contraordenação que o pode obrigar ao pagamento de mais de 7 milhões de euros de coimas, com o argumento de que não o conseguira encontrar nas várias moradas conhecidas (ainda que o seu gabinete se situasse a poucos metros da sede do próprio Banco de Portugal).
Esqueçamos as trocas e baldrocas na votação sobre o IVA da electricidade e também a discussão sobre o exercício dos poderes de direcção do Ministério Público.
Enfim… olvidemos tudo o mais e bastemo-nos apenas com as mais recentes declarações do ex-ministro da Defesa, Azeredo Lopes, que, em interrogatório judicial, afiançou que, talvez por ver muitos filmes policiais, não estranhara a forma como fora feita a recuperação das armas furtadas em Tancos, justificando que “o informador não podia ser identificado porque tinha medo da Polícia Judiciária, porque a Polícia Marítima estaria disposta a colocar armas ou material militar no jardim do informador” e, ainda (com uma naturalidade inusitada), que “há talhões inteiros de informação que desaparecem do Ministério”.
Nas suas próprias palavras, Azeredo Lopes terá sido “um pobre ministro que quase ficou nos incêndios. Não tinha sido acusado… e teria morrido como um herói.”
(Razão tinha o João Galamba quando afirmou que “se calhar na política há hoje mais medíocres do que havia…”)
Com o gabarito daqueles heróis, embrulhados numas fatiotas catitas e besuntados com umas maquilhagens à maneira, convenço-me que a esta trama só poderá faltar a assinatura de um grande mestre do cinema.
‘Era Uma Vez em… Portugal’ rumo ao Óscar!

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