Opinião: Sobre a tirania de parecer feliz

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Na mesa ao meu lado quatro raparigas discutiam de uma forma exaltada, trocando acusações e insultos. A discussão era feia, quase no limite da violência física, e parecia piorar a cada instante. Todavia, algo dava uma tonalidade caricata ao episódio: de cinco em cinco minutos uma delas levantava-se, erguia o smartphone e tirava uma selfie ao grupo. A cada um desses momentos correspondia a suspensão da gritaria e a exibição de súbitos sorrisos de felicidade, de inesperadas expressões de simpatia, de gestos destinados a provar no futuro uma amizade sólida e um momento de serenidade. Situações destas fazem parte do nosso quotidiano, habitado por uma omnipresente vontade de aparentar alegria e felicidade, mesmo quando estas são forçadas e teatrais.

Em «A Ditadura da Felicidade», de 2018, o psicólogo Edgar Cabanas e a socióloga Eva Illouz propõem-se tratar a forma como hoje «a ciência da felicidade controla as nossas vidas». O livro combina muitos exemplos da vontade quotidiana de simular contentamento – para o que se desenvolveu até uma indústria destinada a cultivar a sua aparência – com uma eficaz demonstração da perversidade real que é gerada por esta situação. Na verdade, este culto da simulação traduz ou incorpora pesadas formas de opressão e de restrição da liberdade individual, funcionando como instrumento de coação ao dispor de uma tirania do otimismo.

Recuo no tempo. Vivi parte importante do passado – a infância, a adolescência, o início da vida adulta – imerso num certo culto da sobriedade. Não me entendam mal: filho da classe média, não sofri então dificuldades materiais ou afetivas que me obscurecessem os dias; ao mesmo tempo, a cultura libertária e hedonista dos anos sessenta na qual me formei ajudou a distanciar-me do regime opressivo, lúgubre e autoritário do salazarismo. Combatê-lo era também lutar pelo direito à felicidade. Só que, para a parte mais participativa da minha geração, ser-se feliz não passava por exibir um sorriso do acordar ao adormecer, mas por sentir-se parte da mudança do mundo que lhe parecia estar a acontecer e requeria o empenho de cada um. Para muitos rapazes e raparigas, a própria ideia de sedução pessoal articulava-se com a imagem de «seriedade» que era, afinal, a da responsabilidade existencial partilhada. Sorrir o tempo todo era atitude de pateta que ninguém levava a sério.

Rigorosamente o contrário deste tempo. Onde, acompanhando os progressos da saúde dentária, um simulacro de alegria sob a forma de eterno sorriso procura traduzir uma ideia de triunfo assente no individualismo e na «desideologização» do mundo. A omnipresença da ideia de «sucesso» traduz agora uma afirmação do sujeito que visa destacá-lo dos demais, assegurando-lhe uma dimensão de poder e um estatuto de superioridade, conferidos pela exibição artificial de confiança e de que encara o presente com a dose de otimismo que é própria dos «vencedores». Veja-se o triste exemplo dos trabalhadores nas cadeias de montagem das cidades industriais de Huizhou ou de Osaka, cujo permanente cansaço, até à exaustão, não pode ser exibido, uma vez que tal poderia dar a ideia de que o «colaborador» é infeliz, assim lesando o ânimo coletivo e a confiança dos investidores.

No final do volume, Cabanas e Illouz deixam palavras de esperança, que são também apelos a uma transformação neste campo: «Conhecimento e justiça, e não a felicidade, continuam a ser os propósitos morais revolucionários da nossa vida». Ao contrário do que sugeria o filósofo Hobbes no século XVII, não nascemos para ser infelizes numa guerra de todos contra todos, e rir ajuda-nos muito a viver melhor. Não podemos, além disso, existir para nos superiorizarmos aos outros. A verdadeira alegria será sempre coletiva e vivida numa sociedade mais justa e igualitária, onde apenas riremos quando existirem motivos para o fazer.

Pode ler o texto de opinião de Rui Bebiano na edição em papel deste fim de semana, 16 e 17 de novembro, do Diário As Beiras 

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