Opinião: Não houve Queima

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Naqueles loucos anos de 1969 não houve Queima das Fitas. Num comunicado, a Comissão repudiou a ideia do estudante como um parafuso feito para ser enroscado numa qualquer máquina. E isto, no fundo, é uma alegoria ao que alude a célebre Carta à Nação, publicada pelos estudantes em 7 de maio de 1969.
Nessa carta sugeria-se o reconhecimento da utilidade social do estudante, mas reclamava-se sobretudo a independência da Universidade – no sentido da autonomia dos estabelecimentos de ensino –, exortava-se à educação permanente e clamava-se pela democratização do ensino – ao alcance de todos e de forma gratuita!
Algumas destas reivindicações parecem manter-se atuais, pese embora a devida diferença dos tempos, que tem de ser reconhecida como um esforço de toda a sociedade civil, académica e política.
Mas o regime totalitário não deu sinais de atender aos estudantes. Concentrou, como era seu apanágio, a sua força em formas de repressão e de silenciamento. Encontrou uma muralha do outro lado. Ninguém baixou os braços. No dia 28 de maio, nos jardins da AAC, a Assembleia Magna votou pela greve aos exames. “Ou há exames para todos ou não há para ninguém”, observa-se numa faixa. A greve aos exames significava perder o ano, enfrentar a família, perder a bolsa de estudo, em alguns casos deixar de estudar, a ida para a tropa e ainda, para certos estudantes, o exílio. Como se vê, esta era uma medida duríssima e séria de luto. O número é avassalador: 86% dos estudantes não fizeram exames.
Os fura-greves foram considerados traidores e a denúncia pública tornou-se um dever dos estudantes. A academia, estas mulheres e estes homens, a cidade de Coimbra, são motivo de orgulho incomensurável para todos. É para mim, sempre!
No dia 2 de junho o calendário badala o primeiro dia de exames. Coimbra apareceu cercada por forças da GNR, da PSP e da polícia de choque. Não havia Facebook, Internet, computadores, telemóveis. Mas havia a imaginação indignada. Os estudantes puseram pregos na estrada e causaram forte perturbação no trânsito, sobretudo às viaturas policiais.
A propaganda queria fazer passar a imagem de que os estudantes eram arruaceiros, desordeiros e perigosos agitadores. Mas estes responderam com flores. Mostraram-se pacifistas e agradeceram o apoio da cidade. Saíram no dia 3 de junho em direção à Baixa de Coimbra – a Operação Flor aconteceu em 3 de junho e não em 17 de abril, como por ignorância há quem confunda. Passaram pelo mercado onde compraram flores, que distribuíram aos lojistas, habitantes e transeuntes.
Dias depois, em 14 de junho, os estudantes deslocaram-se em romaria, desde os jardins da AAC até à Portagem, circulando pelas ruas da Baixa, levando balões com dizeres de protesto. Ao aproximar-se a polícia, estes iam soltando os balões perdendo-se no céu a prova que fazia irritar a PIDE. Esta ação ficou conhecida por “Operação Balão”.
A Académica, apurada para disputar a final da Taça de Portugal com o Benfica, deslocou-se no dia 22 de junho ao Jamor. Os estudantes foram em cortejo, de comboio, para apoiar a sua equipa. Como me contou Rui Pato, muitos levaram para Lisboa panfletos dentro da roupa, que divulgaram na capital e, como imortaliza uma célebre fotografia, lançaram aos milhares pelo ar em pleno estádio de futebol. Esse jogo, pela primeira vez, não foi transmitido pela RTP, e não contou com a presença nem do Presidente da República nem do Governo. Os jogadores de Coimbra entraram em campo a passo, alguns com capas caídas pelos ombros. As tarjas mostravam aos presentes que a academia estava em protesto e não cedia.
Hoje, o tempo, como uma lanterna, permite discernir melhor os acontecimentos. As fantásticas estratégias dos grupos estudantis que reuniam na clandestinidade dão-nos conta de episódios espantosos presenciados pelas pedras das calçadas de Coimbra, cidade de agitação, revolta mas ao mesmo tempo de união. Cidade de liberdade cuja luta tem de continuar a ser disputada. Na altura, os academistas jogavam ao gato e ao rato com a PIDE. Alguns estudantes vigiavam os rádios da polícia a partir de uma República. Há relatos tremendos de estórias que merecem ser contadas.
Não ceder ante um regime fascista é um ato heroico, destemido e audaz. Em outubro desse ano 49 estudantes foram compulsivamente incorporados no exército. A guerra do Ultramar não era um dever patriótico mas uma forma de castigo. A luta estendeu-se e foi um golpe profundo ao regime ditatorial, que tentou deter os estudantes pela via repressiva. Por ironia, cinco anos depois, no mesmo mês de abril, com flores, amanheceu em Portugal a liberdade.

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