Opinião: Médicos Millenials: o que nos move?

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Nascidos entre 1980 e meados dos anos 90, crescemos com a Rua Sésamo em dias felizes, com o País em crescimento económico e somos agora um batalhão de adultos que enfrenta uma realidade para a qual não estávamos preparados.
Não somos pagos de acordo com o real valor do nosso trabalho e isso transforma-nos, vamos sem medo à vida, na busca interior do que nos faz felizes e na concretização desse desejo de felicidade.
Dedicamo-nos aos doentes com a missão de traçar um caminho de desenvolvimento na Medicina. Enchemos as especialidades médicas de competências técnicas e não técnicas e vemos a vida de outro modo. Entramos por novos caminhos: investigação, indústria farmacêutica, gestão, voluntariado, associativismo, assessoria técnica, ensino informal. Acreditamos no talento e na boa liderança como forma de mudança da cultura na Saúde.
Acreditamos no mérito e não nos revemos na maioria do poder político. Confrontamos as chefias mais difíceis com a negação a turnos loucos de 24 horas e a horas extraordinárias em excesso, levantando o véu da falta de recursos médicos. Deixamos de “desenrascar” os serviços, em prol da nossa saúde. Tratamos os mais novos como iguais e incentivamo-los a não se deixarem pisar pelo sistema, a defenderem os seus direitos. Porque os doentes merecem médicos capazes de cuidar deles, com saúde física e mental.
A igualdade de género é ponto assente e vivemos sem grandes hierarquias. Não gostamos do “Dr.” no cartão do banco porque somos todos iguais. Acreditamos na equipa inequivocamente e queremos desenvolver os locais onde trabalhamos, com ideias novas e determinação. Move-nos o objetivo de desenvolver conhecimento e construir projetos para melhorar a qualidade de vida dos doentes. Queremos responsabilidade sem vaidade. Somos informais, pragmáticos e livres de status quo.
Respeitamos o nosso corpo e comemos comida saudável, a mais próxima da origem. Respeitamos os animais como irmãos e enchemos as redes sociais com sensibilização para causas coletivas. Temos consciência que a vida é curta e vivemos em proximidade com a natureza, aproveitando, conscientes, os momentos de paz. Damos muito valor à família e esforçamo-nos para que não fique em segundo plano. A era workaholic pura acabou. Vimos a geração anterior dar tudo pelo trabalho e queremos viver mais. Viver, não ter.
Respeitamos profundamente os mais velhos, pelo caminho que trilharam na Medicina, mas discordamos que a idade seja um posto. Somos honestos e respondemos com ética aos desafios, porque a falta de humildade e de verdade só nos traz dissabores.
Move-nos fazer mais e melhor, com a retribuição única de ver a mudança acontecer e a vida dos doentes a melhorar. São eles o desafio que nos move. Somos uma geração aprendente, que vai aos tombos de vez em quando, até encontrar o seu lugar.
Tentamos pôr mais coração em tudo e menos razão, porque, afinal de contas, não controlamos nada e, depois de 13 anos a estudar Medicina, podemos ir para qualquer ponto do País.
Nenhum trabalho é para sempre e o nosso comprometimento é apenas para com os doentes. Pedimos só que Portugal nos respeite e nos deixe ser assim, ajudando o país a crescer de novo, com as prioridades claras: a dignidade dos doentes e dos profissionais de saúde.

10 Comments

  1. Fernando Pinto says:

    Se fosse diretor do jornal As Beiras, mandava este artigo a pessoa que ocupa o lugar de ministro da saúde. Excelente Dra. Ideias claras e puras.

    • Inês Mesquita says:

      muito obrigada, mesmo. 🙂

      • Zé da Gândara says:

        Sôdôtôra, será que o cenário que a senhora pinta é assim tão linear?

        Olhe… Uma vez que a senhora fala de fenómenos de trabalho 24 horas seguidas (um ingrediente que costuma dar em caldo entornado – o burnout).. permito-me interpelá-la com uma questão:

        Na sua opinião, o trabalho compulsório com fenómenos de directa (se não trabalhas, vais para a rua) que desemboca em burnout é ou não doença de causa profissional / doença profissional?

        É que sabe, um dos seus colegas Millenials e a sua acólita de outra especialidade, acham que assim não será e naturalmente que, estramos em rota de colisão…

        Será que se pode concluir que afinal há Doctors Millenials que alimentam o sistema decrépito que por cá existe, colocando os seus interesses (manter o empreguinho) em detrimento do papel humanista que deveria nortear a actividade profissional de um Doctor?

  2. Pedro Craveiro says:

    Excelente ideologia de vida pessoal e profissional!!!
    Se todos, independentemente da profissão, se comportassem dessa forma, a qualidade de vida e as relações Humanas seriam muito melhores.
    Obrigado.

    • Zé da Gândara says:

      É que este até é oretrato fidedigno da realidde… O senhor pelos vistos, ainda acredita no Pai Natl… Só pode…

  3. Como interna a acabar a especialidade identifico-me com este texto. Obrigada.

  4. hugodunkel says:

    Inês, Parabéns!

    Não sou médico, mas não me importava de o ser, e adorava que estivessem todos sintonizados com as ideias que partilhas!

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