Diário de S. João do Campo – PDM desatualizado aprisiona crescimento

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Quem chega a São João do Campo em dias úteis nota movimento intenso no centro da vila?

É verdade. Nós rondamos, de acordo com os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística, cerca de 2.400 pessoas em todo o território, mas a população está especialmente concentrada na sede da freguesia e na povoação de Cioga do Campo. Aqui há um comércio muito bom. É o que vê, não só na rua principal, mas também nas ruas limítrofes. Esta dinâmica tem a ver com a afluência de pessoas aos diversos serviços. Nesse aspeto, até a existência do posto Multibanco é uma mais-valia que favorece a atividade comercial.

Pelo que vejo há também muitos serviços concentrados neste largo do Freixo?

É aqui, no número 1, que a Junta de Freguesia de São João do Campo tem a sua sede, com as portas abertas o dia inteiro. Acho que não estou em erro se disser que, nesta margem direita do rio, somos a única que está aberta todo o dia. Temos o serviço dos correios e trabalhamos com as finanças para apoio, por exemplo, ao pagamento do imposto de circulação automóvel, com o preenchimento dos documentos e pagamento nos correios. Também temos um protocolo com a Segurança Social no que diz respeito aos idosos. Com autorização deles recebemos aqui, por internet ou mail, as informações respetivas, de forma a poder ajudar aqueles que não têm acesso a estes meios. Assim, vamos fazendo sinalização dos idosos que vivem na freguesia e transmitimos-lhes as informações úteis, seja por telefone, seja presencialmente, porta-a-porta, explicando-lhes cada situação. Com o apoio do Centro Social e Paroquial através de um protocolo recentemente formalizado, através da Comissão Social de freguesia, estamos mais perto dos que mais precisam, e eles ficam a saber que não estão isolados.

Ou seja, há uma monitorização dos idosos que vivem sozinhos?

Sim, há uma boa quantidade de idosos que acompanhamos. Não quer dizer que seja um apoio permanente, mas com estes serviços de retaguarda que a junta presta – com todas as suas valências – só em último caso é que eles têm de se deslocar a Coimbra para tratar dos assuntos mais burocráticos. São problemas que antigamente lhes ocupavam uma manhã inteira e, algumas vezes, até o dia inteiro. Só nos casos em que não temos competências para poder atuar é que os encaminhamos para os respetivos serviços, mas já com todas as indicações necessárias.

Poupa-se tempo e dinheiro…

Com as dificuldades económicas por que todos estamos a passar é uma grande ajuda; essas viagens a Coimbra ficam caras. Por exemplo nas questões dos passes dos transportes públicos, por causa de um euro para a documentação, a viagem de ida e volta pode ficar por dez euros. Nós podemos tratar desses assuntos às pessoas. O mesmo se passa em relação à documentação das Finanças ou da Segurança Social, com que falamos diretamente.

Um serviço que até ultrapassa um pouco as competências da junta?

Repare que é a forma de poder ajudar. Havia muitos que, por causa de um papel do IRS para preencher, chegavam a gastar os tais 10 euros de viagem. Isto acontece mais numa época do ano entre março e maio, que são os meses mais apertados no que diz respeito a estes processos. Se fizermos o boletim do IRS a quem nos pede ajuda ou apoiarmos a documentação de registos ou escrituras, sentimos que estamos a cumprir a nossa função de proximidade à população.

Quando é que a junta avançou para este tipo de apoio?

Era uma intenção minha que ainda vem do tempo em que eu era secretário da junta. Depois, quando me candidatei a presidente da junta, a decisão de pôr esta ideia em prática foi alargada aos meus colegas de direção. Bastou fazer a transposição da ideia para a realidade. Outra das promessas que fiz foi a instalação do posto dos correios, que também se concretizou.

Ainda quanto às questões sociais, a vertente assistencial aos idosos na área da saúde está garantida?

Toda a área assistencial e de saúde é da responsabilidade do Centro Social e Paroquial de São João do Campo, que é a instituição vocacionada para essas valências. Assegura serviços de apoio domiciliário que complementam a valência de centro de dia. É aí que os mais velhos passam grande parte do dia, regressando a casa à noite porque não existe valência de lar na freguesia.

Mas há necessidade de uma residência para idosos na freguesia?

Julgo que sim, mas a situação económica do país não permite avançar agora com projetos desse tipo. Assim, as pessoas mais dependentes ficam o dia todo no centro. Depois, o apoio domiciliário oferece serviços de higiene em casa e alimentação. Durante a noite, até pela forma como as pessoas se organizam em comunidade, em caso de emergência, há sempre um vizinho ou um familiar que dão o alerta.

E o apoio às crianças?

O pré-escolar está assegurado e com qualidade, bem como a escola básica do 1.º ciclo. Para os pais com bebés é que ainda não temos respostas na freguesia. Ou seja, para os mais novos não temos berçário, mas para as idades seguintes estamos bem apetrechados.

Mesmo depois da escola do 1.º ciclo da Cioga do Campo ter encerrado portas?

Isso já foi há quatro anos, mas também era uma escola que pouco mais tinha do que um aluno em cada classe. Estivemos e estamos de acordo com a decisão. Agora temos perto de 80 alunos. Outros 50 estão no jardim-de-infância e quase outros tantos em lista de espera. Os que não têm vaga distribuem-se por Ançã ou Quimbres, que é na freguesia de São Silvestre. Estão bem, mas sempre com a esperança de conseguirem vir para aqui. Isto é cíclico porque há dois anos era ao contrário. Vinham alunos de fora para preencher as vagas que existiam nessa altura.

As questões sociais da freguesia já nos ocuparam algum tempo desta entrevista. Quanto a outras áreas, quais são as principais carências?

Posso desde já dizer-lhe que é urgente que sejam desbloqueadas as limitações à construção de habitação própria, de maneira a que as pessoas que querem construir casa, o possam fazer em São João do Campo. Já tivemos mais população nesta freguesia e perdemos alguma porque não há um parque habitacional que possa dar resposta aos casais jovens que aqui se querem fixar. Estes condicionamentos resultam de ainda estar em vigor um PDM [Plano Diretor Municipal] de 1993, quando já toda a gente anda a ralhar há anos para que se conclua a revisão e se faça a aprovação do novo PDM. Nesta freguesia somos muito afetados porque há uma área muito extensa onde não se pode construir por ser Reserva Agrícola. Os terrenos que existem para urbanizar estão na posse de particulares que não querem vender, antes preferindo deixar aos filhos e aos netos.

É quase um contra senso: uma freguesia rural, com reduzida área urbanizada e não pode crescer no imobiliário?

Mesmo sendo uma freguesia grande, que se estende desde a rotunda da Geria, de ambos os lados da estrada 111, a maioria do território são campos agrícolas que vão até ao antigo Rio Velho.

Na verdade, as pessoas daqui gostam muito daquilo a que chamam o “campone”. Gostam muito da sua terra. Quando saem para trabalhar e viver fora, acabam sempre por demonstrar interesse em regressar, contrariando as políticas dos próprios municípios, que têm a tentação de travar a construção nas freguesias, para concentrar as pessoas nas sedes dos concelhos. Só que, neste caso, quem nasceu no campo não gosta de estar a viver em caixotes na cidade. Como não se pode construir na freguesia, quem fica a ganhar com isso são os concelhos de Montemor-o-Velho e Cantanhede.

Muitas dessas pessoas que mostram intenção de voltar também querem regressar à agricultura?

Até agora estive a falar no sentido de regresso à terra natal para viver. Mas também há muita gente que começa a demonstrar interesse em regressar à terra para cultivar. Essa pode ser uma solução para os problemas financeiros das famílias. Dou-lhe um exemplo concreto: as terras da freguesia de São Martinho do Bispo, na margem do Mondego, são trabalhadas por pessoal daqui. Isto já acontece e vai acontecer cada vez mais.

É uma saída para combater o desemprego?

Dezenas ou centenas de moradores da freguesia trabalhavam há 15, 20 anos, na zona industrial da Pedrulha, em fábricas como a Triunfo, Fábrica da Cerveja e Estaco. Todas essas unidades foram fechando, umas atrás das outras. Talvez 60 por cento da população dessas idades tenham trabalhado lá. Muitos trabalhadores arranjaram emprego, mas outros estão inativos e reformados.

O problema do desemprego está muito presente nesta freguesia. Isso vê-se bem porque temos aqui um posto do IEFP, onde as pessoas desempregadas fazem as suas apresentações quinzenais. Às vezes, isto parece o IEFP da avenida Fernão Magalhães, em Coimbra, com filas cada vez maiores. Não quer dizer que todos sejam da freguesia porque também vêm da Lamarosa, Antuzede e parte de Ançã e Adémia, porque aqui é mais perto do que deslocarem-se à cidade.

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