Uma fauna curiosa

Massano Cardoso

Certo tipo de pessoas chama-me a atenção, mas nunca consegui classificá-las ou encaixá-las numa qualquer ordem. São pessoas que apresentam algumas aptidões, mas não conseguem usá-las, têm um umbigo do tamanho do mundo, cultivam a vulgaridade, são incapazes de se esforçar, entretêm-se a emitir opiniões sobre tudo e sobre nada, invocam a par e passo os seus direitos, mesmo o direito a não ter razão, mas fogem ao cumprimento das suas obrigações, consideram-se com direito a tudo, como se fosse perfeitamente natural, como o ar que respiram, e vivem como o mundo fosse só deles. Uma fauna curiosa que abunda em todos os lados. Acabo de aprender que Ortega y Gasset os denominou “homem-massa”, numa obra escrita há mais de setenta anos, “A Rebelião das Massas”.

O direito à liberdade e a conquista de que todos os homens são iguais são frutos do esforço e da luta de uns poucos que quiseram que todos pudessem libertar-se das desigualdades e também da própria escravidão interior, levando os seres humanos a procurar uma verdadeira e superior liberdade, mas não conseguiram na plenitude. Hoje, as pessoas sabem que são iguais perante a lei, mas pouco fazem para criar, produzir ou inovar; não se esforçam muito, aguardam que as coisas lhes caiam no seu regaço como se fosse um direito inalienável. E se não as possuem, comportam-se como crianças mimadas, ficam tristes, deprimidas, por vezes tornam-se violentas, a ponto de provocarem desacatos e altercações sociais muito graves; veja-se o que aconteceu, há pouco tempo, em Londres e noutras cidades inglesas. Não tinham telemóveis da última geração? Nem plasmas? Nem ipads? Nem roupas de marcas? Nem outros produtos da civilização? É fácil, assaltam-se armazéns e lojas, roubando e destruindo os artigos, como se tivessem direito a tudo isso. “Direito”? É o que sentem, direito a ter tudo o que lhes apetece.

Não podemos esquecer que os apetites sociais consumistas são uma realidade construída durante o século passado, como consequência da “rebelião das massas”, que teve início no século XIX. Este fenómeno atinge qualquer categoria de pessoa ou nível social. Os que resistem a esta onda são os que se esforçam mais, os que pretendem ultrapassar-se, ir mais longe, construir e produzir coisas novas, dar sentido à sua existência. Verdadeiras elites, aristocráticas naquilo que a aristocracia tem mais de nobreza.

Os outros, as “massas”, desfazem-se em queixumes, ao quererem mais direitos, ao exigirem muito, dando pouco, ou nada, em troca. Veja-se os concursos televisivos, ficam aborrecidos por não terem ganho, como se merecessem ganhar! Tamanha é a ignorância, e nem dão conta, ou, então, julgam que a Fortuna lhes deve vassalagem. Vulgaridade patética utilizada para entreter espetadores vulgares. Veja-se os programas de entretenimento matinais ou da tarde, ridículos, banais, sem interesse, fomentando “novos direitos” e nunca, ou quase nunca, contribuindo para o respeito e cumprimento das obrigações. Qual quê, estas doem, e obrigam a esforços, coisa que os homens e mulheres “massa” não estão dispostos a fazer. Veja-se os programas e debates sobre o futebol, gasta-se tempo e promovem-se discussões estéreis e pseudointelectuais. Veja-se a autopromoção programada de amigos e conhecidos naqueles programas televisivos organizados por figuras “nacionais”. Isto só para falar na televisão, porque se entrarmos no campo de algumas manifestações então muito mais poderia dizer, até porque muitos dos manifestantes nem sabem muito bem o que andam a fazer. A “Rebelião das Massas” defraudou muitos dos princípios que nortearam a libertação do homem. Muitas queixas e pouco trabalho. Muitos direitos e muitas falhas no cumprimento dos deveres, aliados a uma apetência crónica para a violência.

“O homem-massa acha que a civilização em que nasceu e que usa é tão espontânea e primigénia como a natureza (…). Os valores fundamentais da cultura não o interessam, não são sensíveis a eles, não está disposto colocar-se a seu serviço”. O homem tem dificuldade em acompanhar o progresso da sua própria civilização e o “homem-massa” não está para se incomodar, prefere uma vida fácil e que haja alguém que alimente os seus prazeres…

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