Nem sempre é preciso destruir

A notícia veio nos jornais da cidade, que nos têm informado sobre o projeto do futuro Museu da Ciência da Universidade de Coimbra. Há dias foi apresentada a segunda fase, talvez a mais difícil, que é a transformação do imponente Colégio de Jesus. Esta missão – recuperar aquele austero e enorme edifício e fazer dele, com o Laboratório Chímico, um Museu da Ciência, ou até da Universidade – é um projecto de envergadura. E que nos deixa cheios de esperança, tendo em conta o que se fez até agora, louvável a vários níveis. Desde a recuperação do edifício pombalino – que há poucos anos era uma ruína, por dentro, e um cordão de lixo, silvas e barracões espúrios, por trás – até ao programa que o Museu da Ciência tem desenvolvido, de promoção e dinamização científica e cultural, dum modo regular e contínuo para miúdos e graúdos. O que não é pouco, em Portugal. O que o Museu fez desde a sua criação, há quatro anos, pela promoção da cultura científica, só será apreciado dentro de anos, mas é de grande importância para o futuro de um povo que quer ter futuro. E é um exemplo de que somos capazes, quando trabalhamos com serenidade e perseverança em planos pensados, faseados e concretizados. O que, repito, não é pouco. É sabido, somos capazes de grandes missões, de ir à Índia e voltar, mas temos que recuperar, depois, em longos estágios de hibernação.

Este projecto tem vindo a ser bem executado, não ficando pelas intenções, nem esquecido, nem a meio. Esperemos que continue a avançar. Em Coimbra têm-se feito coisas desastrosas, como o Metro Mondego, de que toda a gente fala, e muitos com razão, embora nem todos. Mas o que se tem feito ultimamente na Universidade é já apreciável. Desde os edifícios do Pólo II, os quais, como o Reitor Seabra Santos mais de uma vez disse, para exemplo nacional, nunca sofreram das famosas e danosas “derrapagens” político-patobravescas, à portuguesa, passando pelo Pólo III, de que há razões para orgulho, até ao que se tem vindo a fazer na zona do Pólo I, como a recuperação da Sé Nova, a ampliação e reformulação do Museu Nacional de Machado de Castro, o restauro do Colégio de S. Pedro, da Via Latina e da a Torre da Universidade e os actuais trabalhos nas Escadas de Minerva e no pavimento dos Gerais.

Finalmente percebeu-se que há ali um património monumental que merece todo o cuidado, porque é um valor, da cidade e de Portugal. A criação, naquele lugar, de um museu à escala europeia – e a concentração dos diversos museus da Universidade, por um lado, a imponência e proeminência urbana dos edifícios, por outro, e ainda o programa de dinamização feito até agora no Chímico, que nos garantem que poderá ainda ser melhor, no futuro, podem de facto transformá-lo nisso. E é um bom programa, não por megalomania nem vontade desmesurada de alguns, mas porque tem a ambição equivalente ao que merece, em virtude da riqueza, real e potencial que contém. Às vezes lamentamos que não tenha Coimbra sido capaz de uma obra arrojadamente moderna, um edifício âncora, à moda do Museu Guggenheim, de Bilbau, por exemplo. Mas se tratasse com o cuidado devido todo o seu património “tangível e intangível”, e se disso fizesse um programa cultural adequado e uma promoção continuada e inteligente, que já se viu que é capaz de fazer, talvez não precisasse de nenhum Museu Guggenheim. Em Portugal pensamos sempre em fazer de novo, copiando os outros, sobretudo em destruir antes, enquanto desprezamos o antigo e o deixamos apodrecer. Mas quando possuímos património desta qualidade, o que necessitamos é da humildade das inteligências mais capazes para perceber a qualidade real e potencial do que muitas vezes já temos, e saber valorizar. Esta equipa reitoral soube fazê-lo e os resultados já se notam. Esperemos que a nova não abrande, porque muito tempo se perdeu antes.

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