Não fumadores, fumadores e ex-fumadores…

Os comportamentos das pessoas e os ambientes em que vivem são determinantes para o bem-estar e saúde, mas podem ser, também, responsabilizados pelo sofrimento e doença.

Apesar do muito que se sabe – e não é de agora -, relativamente às consequências da exposição tabágica, que também ocorrem nos não fumadores expostos ao “fumo passivo”, muitas pessoas continuam a praticar esse hábito.

Os seres humanos são dotados de características próprias que os distinguem de outras espécies. Partilham comportamentos idênticos, por exemplo, comer, sem o qual não podem sobreviver. Mas a par dos “alimentos para o corpo”, o homem inventou, descobriu e desenvolveu outros tipos de alimentos, eufemisticamente designados “alimentos do espírito”. Como é a única espécie pensante, ou melhor, a única que tem consciência da sua existência e do advir, acabou por encontrar algo capaz de lhe provocar alterações no seu cérebro, através de vários mecanismos, entre os quais se destaca a procura do prazer. Nada a opor à procura de sensações que proporcionem bem-estar e prazer, o pior é quando esses hábitos, mecanismos ou atitudes acabam por provocar alterações da saúde.

A liberdade é um direito inalienável à condição humana, mesmo quando o seu uso esteja na base de prejuízos graves para a saúde do indivíduo. Deste modo, qualquer ser humano deve desfrutá-la, mas tem de ter a noção, e assumir a responsabilidade, de que alguns dos seus hábitos podem provocar-lhe a doença e levá-lo à morte precoce.

Quantas pessoas morreram no século XX devido ao tabaco? Cem milhões! E quantas irão morrer no decurso do atual século? Mil milhões! Um paradoxo próprio da conduta e interesses humanos. Sabem cada vez mais sobre tudo e sobre nada, mas não conseguem, à escala planetária, reduzir ou travar certos fenómenos, como é o caso do tabagismo.

O que se está a observar neste momento é uma dualidade de comportamentos e atitudes entre os dois mundos em que vivemos. No civilizado, ou dito como tal, diminui o número de fumadores, enquanto no mundo subdesenvolvido aumenta o efetivo de consumidores.

Nos povos mais desenvolvidos, a consciência dos cidadãos e a implementação de medidas legislativas foram determinantes para a redução deste fenómeno, tabagismo ativo e passivo. É a altura ideal para provar os efeitos das medidas de cariz legislativo. Tudo aponta, com base nalguns estudos, caso da vizinha Espanha, que as leis antitabágicas já começaram a dar um contributo significativo em número de vidas salvas e na redução de patologias associadas com o tabaco. Afinal, os detratores da legislação antitabágica, que em Portugal tiveram algumas atitudes lamentáveis, chegando ao ponto de utilizarem expressões ofensivas ao conotá-la com o espírito nazi, como um atentado à liberdade, uma expressão de “talibãs da saúde”, não têm razão nenhuma na sua “cruzada” pró tabaquito. A legislação não tem como objetivo impedir a liberdade e as opções individuais. Não, a legislação, neste caso concreto, tem como objetivo defender os que não fumam, a sua saúde e bem-estar. E estamos a conseguir.

Precisamos de “alimentos para o corpo”, devemos escolher os melhores “alimentos para o espírito” (há-os com fartura, sem prejuízos e até com benefícios) e devemos optar pelos melhores “alimentos para a sociedade”, neste caso medidas legislativas capazes de contribuírem de forma inequívoca para a saúde e a riqueza da nossa sociedade, que tão bem precisa.

Uma saudação a todos os que não fumam, aos que já deixaram de fumar e aos fumadores, porque todos têm os seus direitos e responsabilidades. Importa, pois, que cada “grupo” saiba representar com elevado sentido cívico o seu papel na sociedade, não caindo em fundamentalismos nem em falsos moralismos, mas respeitando sempre a saúde do próximo e, se possível, caso assim o entenda, também a sua…

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