Entalados

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Vivemos desde sempre apertados entre restrições que nos impedem de atingir os patamares de realização pessoal que ambicionamos. Alguns menos briosos ficam satisfeitos. Os que têm projectos de vida sentem-se mal. Assim acontecia em 1898 a José Júlio Bettencourt Rodrigues que se lamentava que “entalados no restrito meio, mais do que calmo, estagnado, de Coimbra, os ecos dessa personalidade (Wagner) tinham chegado até mim, singularmente desfigurados pelos prismas vários das interpretações, quer literárias, quer pitorescas”. Agora os jovens que entram na Universidade e qualquer que ela seja, sentem-se entalados pelas dificuldades que o governo anunciou recentemente. Juntas com as já sentidas, transformam a sua formatura num calvário difícil de ultrapassar. Poucos sabem que é o resultado de uma crise bancária nacional e global que um governo à deriva nos quer fazer pagar.

A Universidade como lugar de formação assim transforma-se no palco das vidas complicadas dos estudantes, onde provavelmente ninguém terá cabeça para se preocupar com os problemas de Marc Hauser, um professor de Psicologia de Harvard acusado de má conduta científica. Estarão bem mais preocupados com os enganos em que está envolvida a vida política do país. Ninguém se vai preocupar com os que nas Universidades e Politécnicos fazem da ciência uma balela. Os alunos agora mais desmotivados vão continuar a aparecer tarde e às más horas nas aulas e nos exames.

Os que já trabalham vão ter de se preocupar com a manutenção dos seus postos de trabalho e ainda mais com a qualidade da vida, que têm, já que vai diminuir cruelmente. Os estudantes só se vão preocupar com a falta de professores que partiram para fazer a investigação necessária para o seu doutoramento, deixando de dar aulas. Contudo, o país devia preocupar-se com a falta que a investigação lhe faz e, também, claro, com a conduta científica dos que a devem fazer. E mais ainda com a produtividade dos que a devem fazer.

De facto, na reorganização ou melhor, na reforma do ensino superior, devia haver uma clara preocupação com a provisão de recursos e só a seguir com a produtividade científica e qualidade de ensino. Infelizmente, tal como na economia, nesta procura frenética da salvação do sistema financeiro vale tudo. E o resto, a vida dos que produzem riqueza e ciência nada vale.

Perde-se assim na economia e na academia a ideia dos estímulos a quem trabalha e produz. Tudo se resume a aguentar os que têm poder para obrigar o estado a salvá-los: os bancos. E tudo os outros terão de limitar-se a pagar e a não bufar. Muitos lhes dirão que não têm alternativa. Estão entalados. Dizem os conformistas e os que esperam salvar-se na confusão. Contudo, cresce o desânimo que, por uma estranha dialéctica, se transformará em protesto para prosseguir a luta por uma vida melhor.

Acabarão por dizer que outro mundo é possível.

E é.

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