O livro magistral de um amigo
Fui convidado e fui. Não vou nomear ainda, nem referir porque seria um excesso, não encomendado. A surpresa obriga a ler mais umas linhas. Estavam mais pessoas que nas acampadas do Rossio. Um evento em Coimbra que encheu a tenda de eventos da quinta das lágrimas. Para mim foi um momento de agradecimento a alguém que me foi sempre leal e cordato, tendo tomado decisões avisadas e ponderadas sobre o meu destino. Sou um rebelde nato, um tipo que nasceu com os dentes desalinhados, os cabelos fugiram-me da cabeça, expulso logo cedo do colégio Barroso, com a verve como balas e facadas – desculpem muitos, mas nasci desse jeito. Sou um endiabrado que adora pessoas, contudo detesta prepotência, falta de diálogo e incapacidade crítica.
O Professor José Pedro Figueiredo fez a apresentação da obra e devo confessar a minha admiração. Eloquente, com humor fino, com a elegância típica das fidalguias. Tive algumas divergências de projecto com ele, mas na realidade nunca o afrontei para lá da cordialidade alternativa. Respeito as pessoas inteligentes e ele demonstrou no evento que é dos que fazem falta. Visitou os capítulos, explicou a fineza do autor, perpassou a característica da amizade, da frontalidade regada de perfume e subtileza.
Na sala estavam outros ex-directores de alguma coisa, outros líderes de instituições, uma dezena de pessoas que não me falam há vários anos. Também estavam amigos de toda a vida, gente que me sorri e abraça sem vergonha.
Encontrei, contudo, os que viram a cara para o lado, os que me ignoram acintosamente, os que submeti a odes críticas e mudam de mesa, e lá estavam os que podiam ter feito a diferença e nunca utilizaram os cargos para mudar fosse o que fosse, ou abusaram dele, ou serviram-se dele, ou se apropriaram do que não lhes cabia decidir. A todos agradeço o acinte que me votam. Trata-se de uma coloração. A minha vida foi esta turbulência, esta onda que se levantou, esta oferenda indisciplinada (espero que sempre educada) que é o oposto da vida do homenageado e do autor.
Martins Nunes foi muitas coisas e geriu muita gente. Assessorou ministros que acabaram mal e gente que brilhou. Foi um exemplo de um modo cerimonioso e amistoso de procurar consensos. Admiro-o também por isso, consciente que eu seria incapaz.
Um canalha ou um crápula podia conseguir falar com Martins Nunes, porém ele de modo impercetível livrar-se-ia do escroque. Um talento que invejo e respeito. A nossa diferença é que eu habito na cor berrante e ele no cinza moderno, com lustro. Estar naquela apresentação foi um modo de lhe agradecer e tenho pena de algumas coisas: como de costume “a media” não estava e não deu o destaque justo; a ministra da saúde terá faltado por razões plausíveis e importantes, o tempo não me permitiu trazer o livro assinado pelo autor.
Também gostei de reconhecer pessoas que sempre disseram mal do autor a mostrarem-se no evento. Coimbra tem muito disto: um azedume comedido, um ódio silencioso, e por essa razão os pacatos vão governando a cidade e ela não avança e não desabrocha. Precisamos de audácia, de projecto e de decisão, sendo que isso oferece oposições e “desamigos”, ou então temos de aprender com o Martins Nunes a fazer tudo isso com pinças e boa anestesia.

