Inteligência artificial está a obrigar a Critical Software a refundar-se
Fotografia: Pedro Filipe Ramos
A inteligência artificial está a obrigar a tecnológica Critical Software, sediada em Coimbra, a refundar-se como empresa, deixando de lado o software para se dedicar à tecnologia e engenharia, afirmou hoje um dos fundadores.
“Nós estamos a refundar a empresa. Há um antes e depois da inteligência artificial”, afirmou à agência Lusa o cofundador e presidente do conselho de administração da Critical Software, Gonçalo Quadros.
Para o responsável, a evolução da inteligência artificial e daquilo que é capaz de fazer tem sido “exponencial”, dando nota de saltos daquilo que a tecnologia é capaz de fazer no espaço de “meses”.
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“Nós temos que reinventar ou refundar a empresa porque temos que saber o que é que nos deve caber neste processo de aumento de tecnologia. Mas uma coisa é certa, não é seguramente o desenvolvimento de software que é o que nós temos sido, afinal de contas, até agora”, notou Gonçalo Quadros.
Questionado sobre uma recente vaga de despedimentos na empresa, o presidente do conselho de administração da Critical Software recusou adiantar detalhes sobre isso, mas admitiu que foram despedidas “algumas pessoas”, sem esclarecer quantas, por causa das mudanças que a inteligência artificial tem implicado na empresa.
“Nós queríamos ajustar a nossa organização para garantir que mantemos a agilidade, a flexibilidade, a rapidez, e, portanto, cortando tudo o que nos possa tornar menos flexíveis ou menos ágeis para poder responder melhor”, disse, referindo que, de momento, a empresa já não está nesse processo de redução de postos de trabalho.
Segundo Gonçalo Quadros, na Critical, o primeiro trabalho na empresa a ter sido substituído pela IA foi o trabalho de rotina, nomeadamente testar um sistema e ver como é que esse se comporta, com a máquina a fazê-lo com “uma eficácia e eficiência absolutamente brutal”.
Posteriormente, a IA passou a ser usada para a própria produção de código.
“Ao contrário do que acontecia há dois ou três anos, hoje a máquina faz código com uma qualidade brutal”, notou.
Para o cofundador da Critical Software, a empresa irá continuar a fazer tecnologia e a desenvolver soluções para sistemas críticos em setores como a aviação, aeroespacial ou automóvel, mas deixará de desenvolver ‘software’.
Neste momento, a empresa ainda desenvolve ‘software’, mas Gonçalo Quadros acredita que, “algures no tempo, algures mais à frente e num futuro não muito longínquo, o ‘software’, em grande parte, vai ser feito pela máquina”.
Um sistema que comanda um avião ou que garante que um comboio não passa um sinal vermelho “é um pedaço de tecnologia, que tem ‘software’, mas que tem de ser desenhado, verificado e validado” por humanos, recordou, acreditando que essa componente não vai desaparecer.
“Talvez a inteligência artificial – e quando digo isto não estou a exagerar – aumente dez vezes a nossa capacidade produtiva. Ou seja, nós podemos desenvolver tecnologia dez vezes mais rápido”, disse.
Perante essa possibilidade, Gonçalo Quadros acredita que a empresa poderá desenvolver sistemas que, de outra forma não seriam “eficientes economicamente”, porque implicavam uma grande capacidade de desenvolvimento de ‘software’ que passa a poder ser delegado a uma máquina.
No entanto, o cofundador da tecnológica admite alguma preocupação quando olha para o futuro e para o momento atual de competição entre as grandes empresas que disputam o desenvolvimento da inteligência artificial.
“Nós podemos estar à beira do abismo. Eu não sei o que vai acontecer se de repente as máquinas chegarem ao famoso RCI [recursive self improvement – capacidade de o sistema se otimizar a si próprio] e, de repente, perdemos o controlo”, disse.
“A probabilidade de acontecer qualquer coisa distópica é maior do que alguma vez foi. Não estou a dizer que é grande ou que é pequena, mas é maior do que alguma vez foi”, afirmou.

