Decifrar os enigmas do Sol: a ciência no centro do sistema solar
As estrelas mantêm connosco um diálogo permanente. O Sol, a nossa estrela-mãe, fala connosco através da luz, de campos magnéticos dinâmicos e de um vento de partículas contínuo, emitido a velocidades entre 300 e 800 km/s. Esta dinâmica tem impacto direto no nosso planeta: erupções violentas e ejeções de massa coronal libertam milhares de milhões de toneladas de matéria, desencadeando tempestades espaciais, gerando auroras e podendo perturbar redes elétricas e sistemas de navegação e comunicação por satélite.
Apesar de séculos de observações, como é o caso do Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra, a física solar enfrenta enigmas fundamentais: o que aquece a coroa solar a mais de um milhão de graus Celsius, quando a superfície visível ronda os 5 500 °C? O que governa o ciclo magnético de 11 anos e a inversão dos seus polos? Qual a origem dos ventos solares supersónicos? Como evolui o campo magnético nos polos solares?
Para responder a estas perguntas da física solar e compreender a meteorologia espacial, a Agência Espacial Europeia (ESA) lançou a missão Solar Orbiter. A sua grande inovação científica reside em conjugar medições diretas, com sensores no satélite que detetam partículas e campos magnéticos, com telescópios óticos, de raios X e ultravioleta, que analisam em simultâneo várias camadas da atmosfera solar. Ao utilizar o campo gravítico de Vénus para inclinar a sua trajetória fora do plano dos planetas, a sonda proporcionará também as primeiras observações diretas das regiões polares do Sol, o ingrediente essencial para decifrar o ciclo solar.
Observar o Sol a apenas 42 milhões de quilómetros significa enfrentar treze vezes a radiação sentida na Terra, com o escudo térmico frontal a atingir 520 °C enquanto a face em sombra desce aos 100 °C negativos. Esta ambiciosa recolha de dados só é viável porque os detetores viajam resguardados por engenharia de precisão. É aqui que a missão se cruza com a nossa região: estruturas de suporte mecânico e soluções de controlo térmico desenvolvidas pela Active Space Technologies, sediada em Coimbra, asseguram que os instrumentos resistem a este choque térmico e ao lançamento.
Desvendar a voz da nossa estrela é essencial para uma sociedade cada vez mais dependente da tecnologia e exige levar a ciência aos limites do Sistema Solar. É gratificante constatar que a decifração dos grandes mistérios do Cosmos conta com o talento e a tecnologia concebidos na nossa cidade.
Imagem: A sonda Solar Orbiter investiga a ligação
entre o Sol e a Terra, como fenómeno que originam auroras
mas pode perturbar as comunicações e a navegação por satélite.
Creditos: ESA/AOES

