Os astros também dizem coisas

Em busca de uma amostra da lua marciana Fobos

22 de outubro de 2026 às 08 h45

O planeta Marte tem duas pequenas luas. Deimos, a mais pequena, com cerca de 10 km apenas, orbita Marte a 20 000 km de altitude em pouco mais de 30 horas. Fobos tem 22 km e orbita Marte a 6 000 km de altitude em menos de 8 horas. Por orbitar a uma altitude tão baixa, Fobos tem ainda a particularidade de decair quase 2 metros por século. Em menos de 40 milhões de anos, aproximar-se-á tanto de Marte que se desintegrará, criando à volta deste um anel de poeiras semelhante ao de um pequeno Saturno, que se manterá por lá entre 1 e 100 milhões de anos até desaparecer.

Segundo a mitologia, Marte, deus romano da guerra, da agricultura e da fertilidade, filho de Júpiter e Juno, fazia-se acompanhar na guerra pelos seus filhos Fobos (Medo) e Deimos (Pavor). Tendo o astrónomo Asaph Hall descoberto as suas duas luas em 1877, achou-se por bem ficarem com estes nomes.

A origem destas duas luas, porém, é um debate antigo. Uma teoria argumenta que as luas não passam de dois asteroides capturados pela gravidade de Marte. A ideia parece intuitiva, dado Marte estar próximo da Cintura de Asteroides e de muitos deles passarem perto. No entanto, todos os cálculos mostram ser muito difícil capturar dois asteroides com as baixas órbitas que Fobos e Deimos têm.

Outra teoria defende que, ainda durante a infância do Sistema Solar, Marte sofreu uma enorme colisão, ejetando para o espaço uma gigantesca quantidade de detritos; parte desse material formou um disco em torno do planeta, do qual uma fração se aglutinou, dando origem a estas duas luas. Contudo, neste cenário, as luas deveriam ter uma composição mais distinta dos asteroides do que aquilo que observamos, pelo que a incerteza se mantém. Mais recentemente, uma teoria propôs que Marte já teve uma lua maior que acabou por se desintegrar ao aproximar-se demasiado do planeta (devido às forças de maré), criando um anel de poeiras no qual mais tarde se aglutinaram Fobos e Deimos — sabendo-se que Fobos está também destinada a desintegrar-se um dia.

Há aqui uma semelhança entre esta teoria e a anterior, mas, por enquanto, com os dados disponíveis, é-nos essencialmente impossível comprovar qualquer uma delas.
Eis que, na passada 2.ª feira, a Agência Espacial Japonesa (JAXA) lançou a missão MMX a partir do seu Centro Espacial de Tanegashima — na mesma ilha onde os portugueses chegaram em 1543. Esta missão tem como objetivo estudar as luas Fobos e Deimos, onde chegará em 2027, pousando inclusive um rover em Fobos que extrairá uma amostra de 10 gramas do seu solo, com regresso à Terra previsto para 2031. Dez gramas parecem pouco, mas permitirão estudar muito e, entre várias coisas, espera-se conseguir resolver de uma vez por todas o mistério da formação destas luas.

Imagem: Esquema da viagem da sonda MMX.
Créditos: JAXA

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