Compreender a sociedadeOpinião

O poder sombrio do «homem comum»

17 de outubro de 2026 às 08 h45

Um panorama negativo emergiu no final do século XX, tornando-se dominante nas últimas duas décadas. Ele integra escolhas e práticas de natureza política e cultural que se distinguem bastante, configurando uma rutura com o passado, daquelas que foram dando corpo, após a Segunda Guerra Mundial, aos modos de conhecer, interpretar e transformar a realidade.

Por pouco mais de meio século, afirmou-se então um conjunto de traços civilizacionais diferenciados, historicamente ancorados na influência, ao mesmo tempo longínqua e presente, dos princípios fundadores do humanismo e do iluminismo. Do primeiro, ele herdara a convicção de que todo o individuo tem o direito de escolher o sentido da sua vida. Do segundo, trouxera o papel crucial do conhecimento e da razão.

Foram, porém, os ideais do liberalismo político, do romantismo, do marxismo e do pensamento libertário, associados ao crescimento dos direitos do trabalho, ao alargamento da classe média, à emergência do Estado-Providência e da educação pública, e à afirmação do intelectual como agente da mudança, a dar consistência a sociedades onde saber, pensar, ler, escrever ou criar passaram a ser reconhecidos como fatores decisivos do progresso social, agora acessíveis a um volume crescente de pessoas.

Na segunda metade do século passado, este quadro aplicou-se aos países a viver em democracia, mas também àqueles sob regimes autoritários.

Na França e nos EUA, na União Soviética e na Polónia, na China e no Brasil, na Índia e em Portugal, o conhecimento era agora aceite como instrumento de progresso, bem-estar e emancipação.

A partir dos anos noventa esse panorama começou a alterar-se rapidamente. Em crónicas anteriores tenho lembrado alguns vetores desta mudança. Esta começou com a afirmação de uma era pautada pelo individualismo e pelo egoísmo associada à expansão da economia neoliberal, apresentada como etapa definitiva da evolução da humanidade.

Continuou com a mercantilização consumista e a naturalização da desigualdade social. E culminou com a afirmação, imposta pela nova extrema-direita populista, de um interesse geral pautado pela valorização das emoções mais básicas, pelo destaque dado à ignorância como «direito» e por um primarismo comunicacional que hipervaloriza o comportamento instintivo e a linguagem do ódio, desdenhando o saber como motor do progresso humano.

Neste processo tem lugar central a afirmação, potenciada pelas redes sociais, da figura do «homem comum», usando aqui o conceito numa dimensão além do género que invoca. Este representa o sujeito-padrão, anónimo, moldado pelas rotinas do trabalho, pela hierarquia, pela insciência e pela tirania do hábito, esse «sistema de disposições duráveis» do qual falou Pierre Bourdieu. O que não se distingue por uma qualidade peculiar, nem pela prática regular da cidadania, mas por uma «mediania» ancorada no simples e no banal. É em seu nome que ousam falar os líderes populistas, incentivando junto dele, com a intervenção da informação manipulada, a desconfiança e o ódio perante quem está «acima» apenas porque sabe mais ou tem algum poder.

Este padrão de «homem comum» não é o cidadão que se bate pela igualdade e pelos seus direitos, mas aquele que adota o nível mais baixo de exigência, formação, intelecto, gosto ou moralidade, capaz de se juntar a muitos outros sob um projeto político que não entende na plenitude, mas reconhece como «seu» e jamais questiona. Um padrão que configura um enorme recuo da consciência política, da sensibilidade e da cultura, contra o qual é imperativo erguer uma forte mobilização cívica. Só desta forma será possível impedir a instalação da animosidade contra «o outro» e contra o saber. Foi usando-a, lembrou Wilhelm Reich em 1945, no seu ensaio sobre o «pequeno homem», que o Partido Nazi chegou ao poder e fez o que fez.

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Últimas

Compreender a sociedade

Opinião