Opinião

A pior forma de governo…

14 de outubro de 2026 às 08 h45

“A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras que têm sido experimentadas”.
Eis a célebre frase proferida por Winston Churchill na Câmara dos Comuns, em 1947.

Lembrei-me desta afirmação de um dos mais destacados estadistas de sempre quando tomei conhecimento do insólito incidente ocorrido anteontem (segunda-feira) com um grupo de militantes e simpatizantes do partido Chega a invadir as instalações da Associação Académica de Coimbra.

Liderado pelas deputadas Rita Matias e Madalena Cordeiro, o grupo penetrou nos gabinetes da Direcção-Geral da AAC e forçou a entrada nos estúdios da RUC (Rádio Universidade de Coimbra), onde estava a ser transmitido, em directo, um debate com a participação de representantes de diversas juventudes partidárias.

Importa referir que o Chega fora convidado a participar nesse debate, mas à distância, uma vez que, por decisão da Academia aprovada em Assembleia Magna por larga maioria, se proibiram elementos daquele partido de entrar nas instalações da AAC. O Chega declinou esse convite, mas depois quis contrariar, através do uso da força, a decisão da Assembleia Magna.

Mesmo que se discorde da decisão do órgão máximo da Academia (fundamentada em argumentos então aduzidos pelos proponentes), ela deverá ser respeitada, pois foi tomada pela maioria dos estudantes em votação democrática.

Porém, pelo que se viu, esse não é o entendimento do Chega.
E estes seus apoiantes não encontraram melhor forma de demonstrar discordância, do que forçarem a entrada na mais antiga e prestigiada Associação portuguesa de estudantes.

A agravar a situação, o facto deste grupo ser liderado por duas jovens deputadas, democraticamente eleitas para a Assembleia da República – o que implica uma maior responsabilidade nas acções que levam a cabo.
Atitudes como esta parece que mostram bem que, para o Chega (ou, pelo menos, para muitos dos seus dirigentes, militantes e apoiantes), a Democracia é mesmo a pior forma de governo. Só que, ao invés do que sublinhava Churchill, para o Chega a melhor forma parece ser a ditadura imposta à força – como sucedeu com o regime salazarista de que o líder do Chega se afirma muito saudoso.

Ao contrário do que é hábito, este texto é uma posição pessoal, e não da AAEC, pois esta Associação não se envolve em disputas partidárias. E é nessa condição que quero aqui elogiar a RUC por não ter excluído o Chega do debate político, num genuíno gesto democrático. Quero também saudar a atitude firme, mas sóbria, que a Direcção-Geral da AAC assumiu perante esta insólita ocorrência.

Uma atitude que dignifica a prestigiada AAC (que celebrará 139 anos de existência no dia 3 do próximo mês de Novembro). Mas dignifica também os seus dirigentes, herdeiros de uma exemplar cultura de liberdade, que não pactuam nem aceitam gestos abusivos de quem aproveita essa liberdade para tentar o regresso de nova ditadura.

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