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Estamos a aprender a viver ou apenas a aguentar?

13 de outubro de 2026 às 09 h30

Vivemos numa sociedade que valoriza demasiado a produtividade, a rapidez e a capacidade constante de resposta. Espera-se que sejamos profissionais competentes, pais presentes, companheiros disponíveis e cidadãos capazes de acompanhar um mundo em permanente e acelerada mudança. Raramente nos perguntamos, porém, quanto custa emocionalmente corresponder a todas estas exigências diárias.

Os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística, que revelam um consumo expressivo de medicação para a ansiedade, a depressão e as dificuldades de sono, merecem muito mais do que surpresa. Convidam-nos a refletir profundamente sobre a forma como organizamos o nosso quotidiano e sobre o verdadeiro lugar que damos à saúde mental numa sociedade sem tempo para parar.

A medicação pode ser essencial, e por vezes indispensável, no tratamento do sofrimento psicológico. Reconhecê-lo com clareza é tão importante como evitar que seja encarada como a única resposta. O problema não está no recurso farmacológico, mas em aceitar com passividade que tantas pessoas sofram sem que as condições que alimentam esse sofrimento sejam devidamente questionadas.

A ansiedade instala-se perante a insegurança profissional, a precariedade, a dificuldade em conciliar trabalho e família, a pressão financeira, a solidão ou a sensação persistente de nunca fazer o suficiente. Não há explicações únicas, nem soluções universais. Enquanto psicóloga, preocupa-me a facilidade com que o sofrimento se torna invisível. Continuamos a trabalhar, a cuidar e a cumprir obrigações mesmo quando estamos exaustos. Aprendemos a funcionar a todo o vapor, mas confundimos resistência com bem-estar.

Cuidar da saúde mental exige espaço de escuta, prevenção e acesso a cuidados atempados. Não podemos colocar toda a responsabilidade pelo bem-estar no próprio indivíduo, como se bastasse aprender a gerir o stress para deixar de sofrer, independentemente das circunstâncias reais da sua vida. Promover a saúde mental é uma responsabilidade coletiva e social que requer ambientes humanos e seguros.

Talvez a pergunta fundamental que estes números nos colocam não seja apenas quantas pessoas precisam de medicação, mas quantas vivem sem o apoio psicológico de que necessitam, habituadas a sobreviver ao quotidiano sem saber vivê-lo de outra forma.

Não se trata de escolher entre medicação e psicologia, nem de procurar culpados. Trata-se de reconhecer o sofrimento, respeitar quem o vive e garantir respostas adequadas. A saúde mental deve ir muito além de ensinar a gerir o sofrimento: deve passar por reescrever possibilidades para que cada pessoa possa habitar a própria vida com equilíbrio, dignidade e esperança.

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