Faz sentido falar do inferno?
Conta-se a história de um homem que citava frequentemente Mark Twain – ‘Prefiro o Céu pelo clima e o Inferno pela companhia’. Achava piada à frase.
Um dia, quando chegou a sua hora, pediu a São Pedro para conhecer o céu e o inferno antes de decidir em qual gostaria de ficar para a eternidade.
Quando chegou ao inferno viu um enorme salão com uma mesa farta cheia de comidas deliciosas e à volta das mesas as pessoas seguravam um enorme garfo na mão. Mas as pessoas estavam magras e famintas, tristes e a sofrer.
Quando chegou ao céu o cenário era exatamente o mesmo: um enorme salão com uma mesa farta cheia de comidas deliciosas e à volta das mesas as pessoas seguravam um enorme garfo na mão. Contudo, aqui as pessoas estavam felizes, sorridentes, bem alimentados.
Então o homem ficou confuso e perguntou a São Pedro qual era a diferença. Segurando as suas enormes chaves, São Pedro disse-lhe que no inferno cada pessoa tenta comer o que tem no seu prato, mas como os garfos são grandes não conseguem levar a comida à sua boca. Já no céu cada pessoa dá a comida à pessoa que tem à sua frente na mesa.
Por isso, o inferno fala de egoísmo, individualismo, de autocentramento, de desconexão… com os outros, com a natureza e, sobretudo, com Deus. Nesta perspetiva ‘o inferno são os outros’ (Sartre).
De facto, o modo como cada pessoa vive a realidade que é comum, faz toda a diferença. Há homens e mulheres céu, generosos, cuidadores, preocupados com os outros e com a natureza.
Estas pessoas revelam-nos um pouco do que o Céu já pode começar aqui na terra. Já está presente, mas ainda não plenamente, numa relação escatológica que reclama compromisso existencial.
Tudo pode começar quando deixo de contemplar o meu umbigo e passo a contar com as pessoas que estão ao meu lado, quando agarro no garfo grande e alimento o que está à minha frente.
No céu a comida sabe a relação, a empatia, a compaixão, a sensibilidade… a contemplação.
Céu ou inferno? É uma opção, é uma decisão, é um modo de se sentar à mesa da vida…
Boas refeições!
