Opinião

Perder o futuro

12 de outubro de 2026 às 08 h45

Da França à Alemanha, passando pela Espanha e Portugal, constatamos um crescimento galopante do populismo e do extremismo político, que não se explicam apenas pela desinformação, pelas redes sociais ou pela crise dos partidos tradicionais. Sim, também, mas existe uma causa estrutural que a política continua a subestimar: o progressivo estrangulamento da classe média.

Durante décadas, o acesso à educação, ao trabalho e à poupança foram apresentados como os pilares da mobilidade social. Hoje, para milhões de cidadãos, em especial os mais jovens, esses pilares já não garantem estabilidade, muito menos progresso. A educação já não assegura emprego e do emprego não resulta salário que garanta sequer poupança.
O custo da habitação, da energia, dos alimentos e dos serviços essenciais, a par do desinvestimento no Estado Social agravaram o fosso entre classes.

A classe média encontra-se, assim, espremida entre uma fiscalidade que pesa sobre o trabalho, despesas fixas crescentes e serviços públicos que não respondem às suas necessidades. Para muitos jovens, comprar casa tornou-se uma miragem; para muitas famílias, poupar é um luxo inacessível e para muitos trabalhadores qualificados subir na vida deixou de ser uma expectativa credível.

É neste terreno que prosperam os líderes demagogos e os movimentos radicais. Identificam culpados, exploram ressentimentos e oferecem respostas simples para problemas complexos. A imigração, o “efeito Bruxelas” e o atavismo dos políticos tradicionais tornam-se alvos convenientes para uma frustração que tem raízes económicas e sociais mais profundas.
A resposta não pode limitar-se a denunciar o extremismo. Exige muito mais do que salários mínimos e dignos, impõe habitação acessível sem espoliação, serviços públicos mais eficazes, impostos mais equilibrados e, com isso, oportunidades reais para as novas gerações.

A verdade é que as nossas democracias liberais deixaram de garantir a perspetiva de uma vida melhor e com isso arrisca-se perder a confiança de quem a sustenta, na sua maioria a classe média. Quando o centro social se sente abandonado, os extremos encontram espaço para crescer. E assim se perde o futuro!

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