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Inundações Devastadoras: enxurradas e epidemias invisíveis

08 de outubro de 2026 às 10 h15

Espanha acordou submersa. As enxurradas desceram das montanhas sem pedir licença, invadindo casas, arrastando móveis, destruindo vidas. Valência, Albacete e outras regiões ficaram marcadas pela força brutal da água, que entrou pelo rés-do-chão das habitações como um intruso imparável. Uma tragédia visível, concreta, feita de lama, perda e luto.

Em Portugal, outra inundação corria silenciosa – uma epidemia invisível, sem meteorologia que a explique, mas com efeitos igualmente devastadores.
A nossa cheia não vem das nuvens, nem dos rios, nem das barragens. Vem de um vírus antigo, persistente, que atravessa fronteiras com a mesma facilidade com que atravessa gerações. O país ficou perplexo, sem saber se enfrentava a peste negra, a gripe espanhola, a cólera ou alguma variante tropical trazida por mosquitos particularmente ambiciosos. Mas não: era apenas o velho vírus inglês chamado football, traduzido, com dramática fidelidade, para futebol.

Este vírus não destrói casas, mas destrói serenidades. Não arrasta móveis, mas arrasta multidões. Não invade o rés-do-chão, mas invade telejornais, cafés, escolas e até assembleias municipais. É uma epidemia que se transmite por contacto visual: basta ver uma bola para ficar infetado. E, ao contrário das doenças clássicas, esta não precisa de mosquitos, ratos ou água contaminada. Basta um árbitro.

Os ambientes de maior risco são hoje as claques nos estádios. É aí que a epidemia atinge níveis de transmissão comunitária explosiva: gritos, insultos, coreografias, bandeiras agitadas como se fossem armas brancas. A agressividade cresce como febre mal diagnosticada. Ninguém sabe exatamente quem infetou quem, mas todos garantem que a culpa é do árbitro.

Depois vêm os canais de televisão, que transformaram o vírus numa programação contínua. Há debates, pré-debates, pós-debates, análises, contra-análises, especialistas em epidemias futebolísticas que surgem como cogumelos após a chuva. A imprensa escrita segue o mesmo protocolo: páginas e páginas dedicadas ao surto, como se o país inteiro estivesse em estado de emergência sanitária.

Nas redes online, a epidemia torna-se digital. Ali, a ignorância, esse grande vetor de transmissão, multiplica-se com a velocidade de um vírus em laboratório. Cada comentário é uma gotícula; cada partilha, uma cadeia de contágio; cada insulto, uma mutação. A desinformação alastra com a mesma facilidade com que se espalha um boato num recreio.

E os locais públicos não escapam: cafés, pastelarias, centros comerciais, transportes, tudo se transforma em sala de espera de urgências emocionais. Multidões absorvem o vírus com a mesma naturalidade com que absorvem o cheiro do café. Ninguém se protege, ninguém usa máscara, ninguém lava as mãos depois de tocar no assunto. A ignorância, essa sim, é a verdadeira pandemia geradora, amplificadora e orgulhosa da sua própria falta de diagnóstico.

Os ambientes de maior risco continuam a ser as escolas. Não porque falte higiene, mas porque falta consciência. Professores e ministérios, ocupados com programas, grelhas e relatórios, não estão preparados para diagnosticar surtos de histeria futebolística. As famílias, por sua vez, também não escapam: muitas já vivem mergulhadas na ignorância, sem perceber que o vírus se transmite de pais para filhos com a mesma naturalidade com que se transmite o apelido.

O resultado é simples: enquanto Espanha enfrenta uma enchente de água, Portugal enfrenta uma enchente de emoções. Lá limpam lama; aqui limpamos ilusões. Lá reconstroem casas; aqui reconstruimos esperanças, sempre à espera de que “para a semana é que vai ser”.

E assim seguimos, país de pé firme, mas coração encharcado, não pela chuva, mas pelo futebol, essa epidemia invisível que nunca precisa de alerta vermelho para se tornar incontrolável.

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