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A primeira vaga politécnica na Europa: industrialização, modernização e ensino superior

08 de outubro de 2026 às 08 h45

O vocábulo “politécnico” deriva das palavras gregas polys, que significa “muitas” ou “várias”, e tékhne, que quer dizer “arte”, “ofício”, “habilidade”, “técnica” e ainda “ciência aplicada”. No século XIX, em plena Revolução Industrial, as universidades tradicionais, de raiz medieval — Bolonha, Paris, Oxford, Coimbra, Salamanca, Cracóvia, Pavia, Praga e Pisa, entre outras — ensinavam prioritariamente Direito civil e canónico, Medicina, Teologia e ciências naturais e experimentais. A sua estrutura curricular encontrava-se pouco preparada para responder às exigências emergentes da industrialização.

De facto, entre o final do século XVIII e a primeira metade do século XIX, as universidades tradicionais permaneceram relativamente afastadas das mudanças económicas e tecnológicas que se desenvolviam na sociedade. Oxford e Cambridge, no Reino Unido, berço da Revolução Industrial, privilegiavam ainda a formação clássica de cavalheiros e clérigos. O currículo assentava no latim, no grego, na filosofia e na teologia, enquanto o conhecimento técnico e prático era frequentemente considerado inferior ao saber académico.

Os inventores e pioneiros da Revolução Industrial não eram, em regra, académicos. James Watt é um exemplo paradigmático de um universo composto por artesãos, mecânicos, relojoeiros e empresários práticos que aprenderam pela experimentação direta. Perante a rigidez curricular das universidades tradicionais, o mercado e o Estado criaram novas instituições capazes de responder às necessidades empresariais, industriais e de infraestruturas. A economia e a sociedade exigiam uma base matemática, científica e técnica que as estruturas universitárias tradicionais não asseguravam plenamente.

É neste contexto que o vocábulo “politécnico” ganha expressão institucional, associado à Escola Politécnica de Paris, fundada em 1794. A instituição tornou-se uma referência internacional do ensino científico e técnico e, em 2019, integrou, juntamente com outras grandes escolas francesas, o Instituto Politécnico de Paris. O caso francês demonstra que a designação “politécnico” não impediu a construção de uma instituição de elevado prestígio, dotada de estatuto jurídico e académico equiparável ao das universidades tradicionais.

O modelo francês alastrou a outros países europeus. Em Itália, surgiram o Instituto Politécnico de Turim, em 1859, e o Instituto Politécnico de Milão, em 1863, aos quais se juntaram, posteriormente, outras instituições de matriz politécnica. Estas escolas consolidaram-se como referências no ensino da engenharia, da arquitetura, da tecnologia e das ciências aplicadas. A designação politécnica não diminuiu o seu reconhecimento; pelo contrário, ficou associada à especialização técnica, à investigação aplicada e à inovação.

Na Suíça, as escolas superiores técnicas de Lausanne e Zurique desenvolveram-se igualmente como instituições de elevada reputação internacional, com formação em ciências básicas, computação, engenharia, tecnologia, ambiente, construção e ciências humanas e sociais. Também aqui a identidade técnica não funcionou como fator de menoridade institucional. O prestígio resultou da qualidade científica, da autonomia, dos recursos e da capacidade de ligação entre ensino, investigação e desenvolvimento económico.

A primeira vaga politécnica europeia permite, assim, retirar uma conclusão central: o nome da instituição é menos importante do que o estatuto jurídico, os meios disponíveis, a qualidade do corpo académico e a capacidade de responder às necessidades da sociedade. Em vários países europeus, o lexema “politécnico” passou a estar associado ao rigor, à ciência aplicada, à engenharia, à inovação e à excelência, sem que isso impedisse essas instituições de adquirirem estatuto universitário pleno.

Esta experiência mostra também que a reorganização do ensino superior é, em grande medida, uma política de Estado. As transformações estruturais não dependem apenas das instituições existentes, mas da capacidade pública para definir missões, criar condições materiais e jurídicas e adaptar o sistema às mudanças económicas e tecnológicas. Num contexto marcado pela volatilidade, o saber académico continua essencial, mas deve ser complementado por sensibilidade prática, flexibilidade cognitiva e ligação à realidade produtiva.

Portugal não acompanhou plenamente esta primeira vaga. A Escola Politécnica de Lisboa e a Academia Politécnica do Porto acabaram integradas em universidades, em vez de consolidarem uma tradição politécnica autónoma com o mesmo prestígio que se verificou noutros países europeus. Esta diferença histórica ajuda a explicar por que razão a designação “politécnico”, fortemente valorizada em vários sistemas de ensino superior europeus, adquiriu em Portugal uma perceção institucional distinta.

A lição europeia permanece atual: a diversidade institucional pode constituir uma vantagem, desde que não seja acompanhada por desigualdade jurídica ou simbólica. A excelência não decorre do nome “universidade” ou “politécnico”, mas da qualidade da missão, da governação, da investigação, do ensino e da capacidade de produzir valor científico, tecnológico e social.

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