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“Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”

06 de outubro de 2026 às 09 h30

José Saramago, mestre da reflexão e das palavras, deixou-nos esta frase no livro: A Caverna. Alude ao equilibro nas decisões que temos de tomar, quando enfrentamos dilemas: se por um lado não podemos atropelar os passos necessários, nem viver em agonia com o relógio; por outro temos de agir com propósito e decisão.

Nas empresas, nas organizações e até mesmo na vida pessoal, enfrentamos constantemente dilemas que nos forçam a decisões. O papel de liderança de cada gestor/a chama-nos à tomada de decisão diária. A reflexão que proponho neste artigo, confronta a velocidade com a ponderação, opõe o impacto da decisão à inércia da “não-decisão”, e como estas questões estão a ser alteradas pela adoção da Inteligência Artificial (I.A.). Esta reflexão surge da discussão que começou no seio das Universidades, gerada pela profundidade da mudança tecnológica e pelos seus efeitos no ensino e na investigação. E a discussão vai muito para além da utilização desta ou daquela ferramenta, toca em aspetos profundos da ética, da socialização e até mesmo do papel futuro das instituições.

Fui convidado pela Universidade de Coimbra (UC), no âmbito da 4.ª edição dos Dias da Sustentabilidade na (UC), que decorre até 15 de outubro, a debater sobre “Sustentabilidade na Era da Inteligência Artificial”, com os Profs. António Dias Figueiredo, Catarina Silva, João Ramalho e Paulo Peixoto. Este texto é apenas um de muitos resultados destes debates, que nos levam a questionar e refletir sobre as ramificações na sociedade e nas diferentes manifestações culturais, artísticas e intelectuais.

Nestas discussões e ao nosso redor, nas diferentes facetas da vida pessoal ou profissional, encontraremos pessoas com tendência saudosista, muito ligadas às memórias do passado e que irão resistir militantemente a mudanças “No meu tempo é que era bom” e algumas apregoarão mesmo que o Apocalipse está para chegar. Outras, cantarão odes a um futuro idílico em que a tecnologia tudo permitirá. A pergunta que fica para os gestores é: como poderemos equilibrar estas visões e como fazê-lo no contexto das empresas, com equipas que misturam muitos cambiantes destas visões extremas?

É um desafio que testará dois pilares das lideranças: direção e estratégia. Vimos este desafio num fenómeno recente: quando o crescimento das redes sociais veio “capturar” a nossa atenção. O papel da gestão foi criar processos para retomar o foco e limitar a distração.

Agora o desafio é diferente: o fenómeno da interação com as ferramentas I.A. vem “desafiar” a capacidade de criar laços. Por ex., vemos como na utilização continuada, algumas ferramentas/chatbots se oferecem como melhores amigos, e até confidentes ou terapeutas! Permitiremos que a IA desempenhe estes papéis? Começaremos que fingir empatia, já é empatia suficiente?…

Os riscos são reais e as potenciais consequências são preocupantes: ao oferecer-se para fazer tudo, a tecnologia estará a limitar a capacidade de correr riscos, ter conversas difíceis, lidar com clientes ou confiar nos nossos próprios julgamentos? Penso que na construção dos novos processos empresariais e organizacionais, a I.A. irá dar a velocidade, mas as lideranças terão o papel central de dar o critério. Num tempo obcecada pela velocidade, a liderança fará o que é mais importante: questionar o que faz as pessoas estarem unidas, o que espera delas e para onde devem avançar juntas.

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