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Ormuz fica ao fundo da rua

05 de outubro de 2026 às 10 h15

Há uma rua em Coimbra que passa por Ormuz. Não vem no Google Maps, mas vem no talão da bomba. Um estreito do outro lado do mundo decide, todas as sextas-feiras, quanto nos custa levar os miúdos à escola. E, de repente, o café da esquina encheu-se de especialistas em geopolítica do Golfo. O gasóleo anda pelos 2,18 euros e está mais caro do que a gasolina há nove semanas seguidas. É como o pão passar a custar mais do que o bolo: ninguém percebe, mas todos pagam. Segundo a DGEG, abastecer na Guarda pode sair até 600 euros por ano mais caro do que em Estarreja.

A geografia passou a ser imposto. E a nossa estratégia? Esperar pela sexta-feira, como quem espera a chave do Euromilhões, para saber se o desconto no ISP sobe ou desce. Política energética em modo boletim meteorológico: olha-se para o céu e leva-se guarda-chuva. Em França, o Governo fez uma pergunta simples: quem sofre mais quando o gasóleo sobe? Não é quem tem metro à porta. É quem mora longe do trabalho e depende do carro para ganhar a vida.

Para essas famílias criou o “leasing social”: um carro elétrico novo, alugado por menos de 200 euros por mês, sem entrada, com o Estado a pagar a primeira renda. Vai na terceira edição e já chegou a cem mil famílias. É como deixar de comprar garrafões todas as semanas e pôr uma torneira em casa. Custa a instalar, mas depois o preço da garrafa deixa de nos tirar o sono. Portugal podia fazer o mesmo, a começar pela Região Centro e pelo interior, onde o carro é ferramenta de trabalho e não luxo. Coimbra, com hospitais, universidade e empresas que trazem gente de toda a região todos os dias, seria um bom ponto de partida. Ormuz vai continuar a abrir e a fechar. O que podemos decidir é quantas famílias ficam presas a essa porta.

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