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RUASofia (III) – Onde está escrita a Coimbra que queremos?

05 de outubro de 2026 às 09 h30

Começámos “apenas” por uma rua. Perguntámos o que significa transformar a Rua da Sofia e quem deve participar nessa transformação. Depois percebemos que uma rua é maior do que a sua própria dimensão: a mobilidade levou-nos a perceber as relações entre habitação, emprego, serviços, transportes e centralidades, num território que ultrapassa os limites do próprio concelho.

Se a transformação de uma rua nos conduz a todas estas relações, falta perguntar onde elas são pensadas em conjunto. Uma das respostas deveria ser o PDM. Não porque determina onde e quanto se pode construir, mas porque o seu Modelo Territorial deve traduzir uma visão do território que queremos construir: onde concentrar ou conter o crescimento, que centralidades reforçar, como organizar a mobilidade, proteger recursos e relacionar a cidade, os espaços rurais e a região.

Coimbra está a rever o seu PDM. Por isso, como se constrói o seu Modelo Territorial é uma das discussões políticas mais importantes que ainda está por fazer.
Não deveria resultar apenas do trabalho dos técnicos, nem estar previamente encerrado numa visão política à espera de ser desenhada num mapa. Precisa de opções políticas, de conhecimento técnico e de conhecimento do território, mas também da discussão de alternativas e da participação daqueles que o vivem e o transformam.

Neste contexto, participar não é comentar um plano quando ele estiver praticamente pronto. É poder contribuir para as escolhas que o estruturam. Isso obriga a passar da pergunta sobre o que cada um pretende fazer no seu terreno para uma discussão coletiva sobre o território que queremos construir. A participação preventiva da revisão do PDM mostrou precisamente como essa passagem de interesses particulares legítimos para uma discussão sobre o futuro comum é difícil — e necessária.

A construção do Modelo Territorial pode tornar-se, assim, uma oportunidade de aprendizagem coletiva sobre Coimbra, pois obriga a relacionar aquilo que as políticas sectoriais tendem a separar. Discutir onde crescer implica falar de mobilidade; a mobilidade leva à habitação, ao emprego e aos serviços; estes, por sua vez, conduzem às relações com as freguesias rurais e os municípios vizinhos.

É também por isso que ter projetos não é o mesmo que ter um projeto de cidade. Uma estação, uma ponte, uma operação de habitação, uma linha de transporte ou a transformação de uma rua podem ser excelentes projetos. A questão é perceber que Coimbra se constrói quando os relacionamos e que visão comum permite decidir entre alternativas, prioridades e tempos diferentes.

Talvez tenha sido preciso começar na Rua da Sofia para chegarmos aqui. A rua levou-nos à cidade. A cidade levou-nos ao território. Regressar agora à Sofia é reconhecer que o seu futuro se constrói nestas relações.

É também neste sentido que devemos voltar à associação RUAS — Recriar a Universidade, Alta e Sofia. Ajudar a recriar implica relacionar a valorização deste património com a cidade que queremos construir. A RUAS pode contribuir para essa construção, aproximando instituições e quem habita, utiliza e transforma estes lugares.

A pergunta que percorreu esta trilogia é, afinal, a mesma: que Coimbra queremos construir?
Mas falta a pergunta mais importante: quem é o “nós” dessa pergunta?
A cidade tem governo.
Não tem um único autor.

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