Um cometa mais velho do que o Sol?
Muito já se falou do objeto interestelar 3I/ATLAS e também aqui falei dele. Até hoje, foi apenas o terceiro corpo celeste (objeto) que identificámos como vindo de fora do nosso sistema solar. O primeiro deles, o 1I/ʻOumuamua, descoberto em 2017, assemelhava-se a um asteroide rochoso. O segundo, o 2I/Borisov, descoberto em 2019, e o terceiro, o 3I/ATLAS, descoberto em 2025, assemelhavam-se ambos a cometas. Este último foi mais brilhante, permitindo melhores estudos, e os últimos resultados da equipa liderada pela sempre alegre Cyrielle Opitom, da Universidade de Edimburgo, concluem que parece ser ainda mais velho do que o nosso próprio Sol.
Certamente que já ouviram falar do carbono-14 (14C) usado para determinar a idade de fósseis e muitos achados arqueológicos. Trata-se de um isótopo do nosso carbono mais comum, o carbono-12 (12C). Ou seja, é um átomo de carbono com mais dois neutrões do que o carbono mais comum. Para nós, seres vivos, este carbono é tão bom como o outro e, parafraseando a Dolores Cotovelo, é-nos indiferente. Porém, com o tempo, um carbono-14 transforma-se num azoto-14 (14N) — nitrogénio para os mais modernos — libertando um eletrão e um antineutrino, num processo chamado decaimento, enquanto que o carbono-12 não se altera. Há cerca de um milhão de milhões mais carbono-12 do que carbono-14, mas enquanto estamos vivos absorvemos os dois.
Quando morremos, deixamos de absorver carbono e assim, com o tempo a proporção de carbono-14 que temos no organismo vai diminuindo por decaimento. E apesar da grande diferença de proporções, conseguimos medi-lo com grande precisão e assim conseguimos datar a idade de um fóssil ou de algo que já foi um organismo vivo. Bom, conseguimos medir até cerca de 50000 anos. Quando é mais do que isso este método já não é bom e temos de usar outros elementos químicos, se disponíveis.
Para o cometa interestelar 3I/ATLAS, o carbono-14 não serve. Porém, pela proporção de carbono-12 com outro isótopo, o carbono-13 (13C), é, felizmente, possível ter uma ideia da idade de algo que se formou algures na nossa galáxia. Tal como o carbono-12, o carbono-13 não decai e mantém-se sempre igual. No entanto, as estrelas formam carbono-13 através de carbono-12 (o carbono-12 captura um protão e forma azoto-13, e este azoto decai mais tarde em carbono-13) e se não houvesse carbono-12 primeiro não haveria carbono-13. Ou seja, só depois de uma geração de estrelas ter formado carbono-12, espalhando-o depois, é que pôde haver uma segunda geração de estrelas já com carbono-12 que conseguiu fabricar carbono-13. E o que as observações com um dos quatro telescópios de 8,2 metros do «Very Large Telescope» — do Observatório Europeu do Sul (ESO), do qual Portugal faz parte — mostraram foi que pela muito pouca quantidade de carbono-13 no cometa interestelar 3I/ATLAS este poderá ser bem mais antigo do que o nosso próprio Sol.
Não nos preocupemos por o Génesis dizer que a luz fez-se primeiro, parecendo que este cometa se fez ainda antes, pois esse capítulo refere-se à criação do mundo e este cometa veio de outro mundo!
