Entre recordes e limites: o turismo transforma Portugal? (parte II)
Prosseguindo a reflexão iniciada no artigo anterior, importa agora olhar com atenção para os limites, as pressões e os desafios que a expansão do turismo coloca ao país e aos seus territórios. Entre janeiro e julho de 2026, Portugal recebeu 18,5 milhões de hóspedes, que somaram 46,5 milhões de dormidas, e as receitas atingiram 16,5 mil milhões de euros (+3,6% face a 2025). O turismo garante, direta e indiretamente, cerca de 1,2 milhões de postos de trabalho, atrai investimento e estimula o comércio, a restauração e a atividade cultural, sendo, por tudo isto, um dos principais motores da nossa economia.
O setor avança a um forte ritmo, mas daí resultam dores de crescimento: quando o número de visitantes aumenta mais do que a capacidade das infraestruturas, da habitação, da mobilidade ou dos serviços públicos, a cidade acaba por se ressentir. Em meu entender, Portugal já não precisa de se mostrar ao mundo ou de focar-se em atrair mais turistas; necessita de garantir que a qualidade de vida dos seus residentes não fica comprometida.
É neste contexto que cerca de 50 municípios de Portugal Continental e da Madeira adotaram a taxa turística. Quando moderada, transparente e bem aplicada, permite recuperar parte dos custos elevados associados ao aumento da procura turística e responder à necessidade de reforçar a limpeza urbana, a manutenção do espaço público, a segurança ou a proteção do património. Não é um obstáculo à competitividade, mas uma forma de assegurar que o turismo contribui de facto para o bem‑estar coletivo.
O Executivo que integrei começou a aplicar, em abril de 2023, a taxa municipal turística (TMT) de 1 euro por noite, limitada a três noites consecutivas e com várias isenções. Nessa ocasião, sublinhei que o aumento dos fluxos turísticos traz novos desafios e um desgaste acrescido das infraestruturas urbanas, pelo que aquela taxa deve ser encarada como um instrumento de proteção da qualidade de vida dos munícipes — e não como uma mera fonte de receita. Mantenho integralmente essa perspetiva, porque sou coerente. Por isso, não posso deixar de ficar perplexo com a alteração aprovada em julho, que duplicou a TMT para 2 euros! Uma medida que teve voto contra do Partido Socialista há quatro anos — entre outras razões, porque podia prejudicar a atratividade do concelho — e que então era considerada um erro, passa a ser uma excelente ideia quando a mesma força política lidera a autarquia…
Esta reviravolta política pode também ser vista como o reconhecimento de que Coimbra se tornou muito mais atrativa e dinâmica, resultado do desenvolvimento económico alcançado entre 2021-2025 e da realização de grandes eventos que projetaram a cidade! Mas o timing escolhido para atualizar a taxa é desadequado, pois os dados mais recentes revelam que algo está a mudar — e não no sentido desejado. As dormidas no concelho mantiveram-se na ordem das 700 mil entre 2023 e 2025, mas entre janeiro e maio de 2026 caíram 4% face ao período homólogo. A AHRESP local e os operadores turísticos apontam no mesmo sentido: menor ocupação, quebra do volume de negócios e procura mais fraca do que no ano anterior.
Os números mostram que a atratividade de Coimbra não é garantida — exige estratégia, visão e investimento. É assim que a taxa turística deve ser entendida: mais do que uma ferramenta financeira, uma política pública que só cumpre a sua função se for aplicada com responsabilidade, coerência e respeito por quem cá vive. O turismo continuará a ser essencial para Portugal e para Coimbra. Mas o futuro dependerá sempre da capacidade política de conjugar crescimento com qualidade de vida e sustentabilidade, garantindo que visitantes e residentes coexistem em equilíbrio!
