Opinião: Os imigrantes de Beja somos nós
Esta semana veio a público a notícia de que uma organização criminosa controlava centenas de trabalhadores estrangeiros, a maioria em situação irregular, no Alentejo, em Beja. Deste grupo fariam parte elementos das forças de segurança: dez agentes da GNR e um da PSP foram detidos, na sequência de uma megaoperação da Polícia Judiciária contra a exploração de imigrantes. Em causa estão suspeitas de auxílio à imigração ilegal, tráfico de pessoas, corrupção e abuso de poder. Em suma: a organização aproveitava-se da vulnerabilidade destes imigrantes para os explorar – ou, melhor dizendo, para os escravizar.
Os militares, entretanto detidos, seriam pagos para controlar e vigiar os trabalhadores, a quem convenciam de que uma eventual queixa às autoridades não seria bem-sucedida. Era uma ameaça muito credível – afinal, eles são a autoridade. Em certos dias, ainda com a farda vestida, estes homens iam até às propriedades agrícolas de Beja e, como capatazes de tempos que pensávamos idos, obrigavam os imigrantes a trabalhos forçados. Há relatos de ameaças, de coação, de violência física. Há histórias de medo e de desespero. As empresas de trabalho temporário envolvidas, criadas para explorar imigrantes em situação de fragilidade, não entregavam aos trabalhadores os valores acordados, retirando-lhes quantias arbitrariamente impostas, que diziam servir para pagar despesas de alojamento, transporte, água, eletricidade e documentação. As cerca de 500 vítimas desta rede – que trabalhavam sem contrato e sem condições – são maioritariamente oriundas da Índia, Nepal, Paquistão e Bangladesh. Na sua maioria, não têm documentos. São “ilegais”, dizem-nos.
Se as alterações propostas à Lei da Nacionalidade, sob análise do Tribunal Constitucional, que apertam os critérios para obtenção da nacionalidade forem adiante, Portugal – que estava na média europeia quanto aos critérios para obtenção de nacionalidade por naturalização – passa a ser um dos países da EU onde haverá maior exigência no acesso à nacionalidade. Vai ser mais fácil conseguir nacionalidade francesa, alemã ou belga do que portuguesa. Sabemos que precisamos destas pessoas, mas dificultamos-lhes o acesso a partilharem plenamente este país, a serem um ou uma de nós, a terem filhos compatriotas dos nossos. Sabemos que precisamos destas pessoas, e sabemos do seu tormento, mas recusamos sair do alto do nosso pedestal de Primeiro Mundo para nos abeirarmos de gente que entra em Portugal atrás da única coisa que ainda não perdeu: o sonho de uma vida melhor. Estas pessoas estão dispaostas a trabalhar sem contrato, recebendo abaixo do valor do mercado e em sectores de grande exigência física (onde, podendo escolher, nenhum de nós quer trabalhar). Mas mesmo sabendo que precisamos desta mão-de-obra imigrante continuamos fortes com os fracos, fingindo surpresa quando as notícias mostram uma realidade que todos sabemos existir: a escravatura do século XXI. Aceitamos que estas pessoas vivam e trabalhem em condições indignas e, até, sob o chicote de agentes do Estado.
Imigrantes sem papéis são alvos fáceis para redes de tráfico, exploração e violação de direitos humanos. Nenhuma pessoa é ilegal. Ninguém precisa de papéis para ser gente – e para ser tratado como tal. Os imigrantes de Beja são iguais a nós, podíamos ser nós, éramos nós até há bem pouco tempo, somos nós.

