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Opinião – O fim das hierarquias?

15 de novembro às 13h17
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O bom senso… o senso comum, continuam a funcionar. Quando queremos montar uma empresa e temos que pensar na sua organização, recorremos à intuição… e ao senso comum. Colocamos um diretor geral, um diretor ou responsável na área operativa ou de produção, outro na área administrativa e financeira, outro ainda na área comercial e, dependendo da dimensão e da natureza da atividade da empresa, outros departamentos podem ser criados. Bem, cada diretor escolheria as chefias com quem gostaria de trabalhar, para os aprovisionamentos, para a produção, para o planeamento, para a manutenção, para a contabilidade, para a tesouraria, para as vendas… etc…etc. E, facilmente, criaríamos as condições para a empresa funcionar de forma eficiente. Na verdade, como as empresas, os clubes desportivos, as fundações, os órgãos do estado, as associações sem fins lucrativos, enfim, todos acabam por adotar formas simples, intuitivas, diria mesmo de baixo custo e muito funcionais, para se organizarem. É algo que vem de longe, da Igreja e do Exército, e que basicamente nos trouxe este modelo hierárquico e piramidal de organização. A própria sociedade acaba por refletir, em grande medida, este modelo estratificador. Hofsted usou mesmo a distância ao poder, como uma das medidas de caraterização das culturas e das sociedades.
Na verdade, passados milhares de anos, convenhamos, não avançámos muito na forma como encaramos a estruturação das empresas, dos serviços públicos e demais organizações. A hierarquia, esta lógica vertical e piramidal de organizar, em que poder, responsabilidade e comunicação, percorrem a organização de cima para baixo, assumiram o comando das nossas sociedades, das nossas organizações e, se calhar, das nossas vidas. Todavia, este século XXI tem mostrado, à saciedade, que a hierarquia está longe de ser um bom modelo organizacional. Os escândalos que têm assolado a Igreja, a diversos níveis (comportamento do clero, cultura interna, gestão financeira, entre outros), mostram que a hierarquia é um modelo incapaz de perceber e antecipar os problemas, de lidar com eles e mesmo de perceber a inserção da Igreja na sociedade. A juntar aos escândalos a Igreja, juntam-se os escândalos ocorridos no seio das forças armadas, que vêm confirmar este meu ceticismo face à hierarquia. Note-se que estamos a falar das duas instituições inspiradoras deste modelo organizacional.
Mas, a cereja no topo do bolo, a confirmação destas minhas dúvidas, é-nos dada pelo reconhecimento revelado da incapacidade para continuar a operação de vacinação em Portugal, após a saída do Almirante. Na verdade, o processo começou na hierarquia do ministério e não funcionou. Foi abandonada a hierarquia e a entrada do Almirante, que pôde coordenar discricionariamente os serviços necessários à prossecução dos objetivos de vacinação, mostraram uma eficiência ímpar… na verdade, uma eficiência eu diria normal… ímpar apenas porque a ela não estamos habituados. Finalmente, pasme-se, voltámos à hierarquia, e o processo voltou a emperrar. Quem pensa que o problema está no Almirante, ou na sua ausência, não pode estar mais enganado. Ele próprio o reconheceu esta semana. O problema está, apenas, na hierarquia. Se retirarem o processo da hierarquia, e chamarem o Almirante, ou qualquer outra pessoa nas mesmas circunstâncias, o processo voltará a entrar nos eixos.
Esta incapacidade da hierarquia para lidar com grandes problemas ou processos complexos e instáveis, não se limita à Igreja, às forças armadas ou ao processo de vacinação. Repare-se que ao fim de muitos anos, a hierarquia se mostrou absolutamente incapaz de lidar com os fogos florestais, com a pobreza, entre outros. Na verdade, as hierarquias podem até funcionar bem em empresas/organizações pequenas, em ambientes estáveis e sob uma supervisão competente e esclarecida. Todavia, a complexidade, a imprevisibilidade e a sofisticação, são uma armadilha mortal para as hierarquias.
Escrevia eu aqui, numa das minhas últimas crónicas, que o Almirante tinha feito um excelente trabalho, mas que o deveríamos encarar com uma profunda normalidade e que não nos poderíamos contentar com menos do que aquilo que tivemos na vacinação: essa deveria ser a normalidade. Infelizmente, a nossa falta de hábito, o termos que viver sob a tirania de uma hierarquia incompetente e ineficiente, despertam em nós a procura de novos sebastianismos. Pois eu vejo a coisa de forma mais simples: se soubermos, inteligentemente, livrarmo-nos destas hierarquias ineficientes e asfixiantes, seja no mudo das empresas, seja no mundo das organizações em geral, permitiremos que a nossa vida se encha de muitos sucessos, como o foi a vacinação.
PS1: O Doutor António Ferreira, do Hospital de S. João, revelou publicamente que a ministra lhe terá pedido o desenho e montagem de um sistema centralizado de gestão de camas hospitalares, no auge da pandemia. O médico revelou ter reunido as competências e elementos necessários num curto espaço de tempo e ter o sistema completamente montado, que acabou morto antes de vir à luz, no pesadelo da hierarquia do ministério…

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