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Opinião: O caminho das sombras do jornalismo

08 de março às 11h51
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Espera-se que o jornalismo se paute sempre por uma reflexão séria. Uma Democracia como a Portuguesa exige do jornalismo a que muitas vezes estamos a assistir que os seus actores passem a fazer sempre uma rigorosa reflexão sobre o que vêem, sobre o que dizem, sobre o que escrevem. Isto é, que tenham sempre presente uma rigorosa autocrítica. O jornalismo é uma narrativa de, ou sobre, factos em tempo real que se acha dever dar a conhecer, mas é necessário que a sua reflexão crítica lhe permita um certo distanciamento emocional, pessoal, de modo que ao leitor ou ouvinte chegue sempre a verdade com clareza para a compreensão dos acontecimentos. Isto é, a mediação jornalística deve saber escolher e dar sentido aos acontecimentos, sem ocultar ou omitir, mas sem deturpar. É tão importante o que se revela com clareza como o que se silencia no escuro. É tão importante saber escolher o que se conta como decidir como se conta.
Hoje, as realidades são cada vez mais complexas, mais caóticas, mais desconfortáveis e bem sabemos como é difícil saber seleccionar o que contar ou comentar e saber decidir sobre quem está ou deve ouvir, mas sempre dentro de um bom contorno de verdade. Ora, as incertezas que dominam a nossa Democracia rondam a falta de verdade. As nossas vidas deveriam ser melhoradas pelo jornalismo, mas isso implica uma selecção do que se publicita na leitura que se faz do Mundo. O Mundo é feito de muitos poderes e actores, e o jornalismo é responsável, ou deveria ser responsável, por resgatar da sombra acontecimentos, pessoas, opiniões.
Estamos em Portugal num momento especial e oportuno para reflectir sobre este assunto: eleições legislativas. Ferve-se num daqueles momentos desconfortáveis quando vemos que cidadãos passivamente consumam uma realidade não com a verdade de quem a praticou mas com a verdade de quem a relatou. Isto é, para tudo há sempre duas verdades!… Refiro-me aos comícios, aos intervenientes, aos líderes de partidos, cuja realidade chega até nós em curtos momentos de imagens e é substituída por outra verdade ficcionada exposta durante muito mais tempo, em muitas mesas redondas de não sei quantos “críticos” e “comentadores” (alguns que se assumem como jornalistas) discutindo o que aconteceu (seja comício, arruada ou outro qualquer evento) e de que só ouvimos excertos, fazendo chegar até nós a notícia sem isenção, diria quase sem escrúpulos quando alguns, dizendo expor a sua opinião (o que não se discute, porque todos têm direito a tal), mas fazendo a sua leitura muitas vezes ao serviço do Partido a que pertence ou apoia, sem a devida identificação de “conflito de interesses”. Isto não é jornalismo.
Com isto, não queremos dizer que cada um dos “críticos”, “comentadores”, jornalistas não possam escolher os acontecimentos que acham mais relevantes, os momentos mais altos ou mais baixos de cada evento, os momentos eventualmente mais controversos, desde que o façam com objectividade, com a clareza necessária para quem os ouve ou lê os entendam como uma opinião pessoal e não como uma verdade.
Não basta afirmar que não há Democracia sem jornalismo (premissa indiscutível) ou que o jornalismo é fundamental para as decisões que tomamos no nosso dia-a-dia. Mas, mais uma vez, voltamos a dizer que deve ser denunciado tudo o que fugiu aos contornos da verdade. Por exemplo, e só para dar um exemplo, no espectro mediático (no mundo político, mas não só) insistem em pensamentos “deliciosos” de “radicalização” que nos deixam com dificuldade em perceber o que é “popular” e o que é “populista”.
Termino com uma breve reflexão que muitos outros já fizeram: Que actuais e futuros jornalistas vejam sempre a sua linguagem como o eixo principal na condução e manutenção da Democracia, porque o jornalismo nunca pode prescindir do poder da linguagem para poder incorporar esse poder no sentido crítico de uma Democracia. Mas essa linguagem poderá ser (e não pode ser) uma “faca de dois gumes”. Esta é uma responsabilidade social do jornalista.

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