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Opinião – Cesário Silva

19 de março às 10h16
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Lá nos arranjámos para que coubéssemos todos – candidatos e dirigentes da Associação Académica de Coimbra – na sala de reuniões da Direção Geral. Os visitados tinham em cima da mesa o seu “caderno reivindicativo para as eleições legislativas 2022”, em que sobressaía a frase “garantir o amanhã”. Na mensagem que introduz o caderno, Cesário Silva, Presidente da AAC, dirige-se aos partidos, exortando-os “a fazer diferente, mais e melhor”, apelando ao aproveitamento da oportunidade eleitoral para “estabelecer novas prioridades ou reorganizar as atuais”.
A Associação Académica de Coimbra é redatora da História deste país, corpo compacto de uma vida longa que forçou uma “Tomada da Bastilha” e passou por lutas antifascistas que tiveram peso na conquista da democracia. É um espaço de vivência democrática e internacionalista de caraterísticas únicas. Não é, por isso, indiferente ser a AAC dirigida por colaboracionistas mansos ou por reivindicadores empenhados em “garantir o amanhã”. Cesário Silva tinha em si aquilo a que chamamos “espírito académico”: o talento de saber estar numa comunidade de desiguais, nas condições e nos objetivos de vida, mas semelhantes na condição juvenil de precisar de abrir caminho no mundo. Quem lhe procurar os passos vai vê-lo sempre um entre os seus – sorridente, ainda por cima.
Invariavelmente, nos discursos de homenagem fazem-se juras de prosseguimento dos gestos, como quem prolonga a vida homenageada para além do seu termo. É justo. Mesmo sabendo que a homenagem dos nossos mortos é tarefa a cargo dos permanecentes. Convenhamos, porém, que, em matéria de deixar vontades a herdar, o Cesário não foi nada brando. Quem reivindica “garantir um Ensino Superior público, gratuito, democrático e de qualidade” aponta caminhos alternativos aos costumeiros. Ainda mais se considerar que “o fim da propina se apresenta como um imperativo da política académica”, uma vez que “a responsabilidade de assegurar igualdade no acesso, justiça nos processos e qualidade no ensino é dos diversos atores envolvidos, desde as Universidades ao Governo da República”.
Na véspera da ultrapassagem, pelos tempos democráticos, da quantidade de dias que Portugal viveu em ditadura, tem especial significado que uma AAC denuncie, pela voz do seu Presidente, “a falta de democraticidade e representatividade na eleição dos órgãos de governo através de um colégio eleitoral restrito”. Preocupemo-nos, pois, já que a inquietação democrática passou a ser bandeira de quem nasceu em democracia.
Na conversa cordial ouvimos defender a carreira de investigador “no ensino universitário orientado por uma perspetiva de promoção de investigação e de criação do saber”. Registámos a vontade de “garantir o emprego [enquanto] principal garante da vida humana”, propondo “que o próximo Governo procure reforçar os direitos dos trabalhadores, combatendo a exploração e a discriminação salarial entre homens e mulheres, garantindo salários dignos para todos”.
Naquele pedaço de início de tarde vozes juvenis sublinharam muitas vezes a palavra “garantir”: a “política pedagógica”, a “ação social”, o “acesso a estruturas”, a “igualdade e inclusão social”, a “inclusão digital”, a “saúde”, a “sustentabilidade ambiental”, a “cultura”, o “desporto”. Lá fora ouvia-se a cacofonia enlouquecida das sondagens diárias e respetivos empates técnicos – eram os barulhos da conjuntura chamando à repetição dos equívocos. Na sala da DG, um jovem corpulento com ar de miúdo, tomado pelo entusiasmo dos apaixonados, falava em “preparar e garantir o amanhã”.

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