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Opinião – A caverna e a cicuta

06 de dezembro às 13h08
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Trezentos e noventa e nove anos antes de Cristo, Sócrates era condenado à morte por ingestão de cicuta, sob acusação de ter corrompido os jovens, ou seja, ensiná-los a pensar por si em vez de se submeterem às ideias de seus pais. Conhecendo este facto, Platão explica-o através da alegoria da caverna, procurando também demonstrar que a verdade (ou essência) das coisas está para lá da sua aparência sensível.

Descrevendo um possível diálogo entre Sócrates e os irmãos mais novos de Platão, este faz-nos imaginar um conjunto de prisioneiros acorrentados desde pequenos numa caverna escura, sem possibilidade de se virarem e de se verem uns aos outros, mas olhando para uma parede onde se projectam sombras.

As sombras são de vários objectos transportados à cabeça de carregadores que, por detrás de um muro que cerca a caverna e iluminados por uma fogueira nas montanhas, são invisíveis para os prisioneiros que ouvem, porém as vozes e ruídos que eles fazem. Facilmente acreditarão então que o mundo é aquilo que eles vêem (as sombras projectadas na caverna) e ouvem, pensando ainda que esses ruídos são a fala das sombras projectadas.

Suponhamos agora que um prisioneiro é libertado e se lhe torna possível ver a caverna de fora. Em primeiro lugar tem de se adaptar à luz do sol mas, pouco a pouco, descobrirá que existe outra realidade diferente da caverna que aloja os prisioneiros. Poderá ser difícil, mas todas as suas crenças terão de mudar. Aprenderá a reconhecer objectos e pessoas, falará e será interrogado por estas, descobrirá o mundo, o sol e os astros, terá de se movimentar, de aprender a andar, eventualmente suportar carregamentos e fazer pela vida, mas ficará deslumbrado por tudo isso. E por muito que a nova vida lhe custe, não quererá certamente voltar à confortável mas ignorante quietude da caverna.

E se algum dia voltar à caverna, terá sérias dificuldades em explicar aos outros prisioneiros que existe todo um mundo lá fora. Estará inferiorizado em relação aos outros pela sua dificuldade em se readaptar à escuridão. Eles rir-se-ão da sua cegueira e recusar-se-ão a sair. Se insistir em dizer que a realidade da caserna não é a verdadeira, terá o acinte dos outros. Nenhum deles ousará sair e, se o forçarem, será capaz de destruir o suposto impostor. Por isso, Sócrates foi condenado a tomar cicuta.

O tema da alegoria da caverna está na fundação da filosofia ocidental mas revela-se actual, aparecendo recorrentemente na literatura e no cinema. Será hoje ainda mais actual? Creio que sim. Muitos mortais sempre viveram nas suas cavernas. Alguns alcançaram a luz e dedicaram as suas vidas a persegui-la. Hoje, porém, ela é acessível a todos, e muita gente se sente ofuscada. Regressar à caverna, parece o mais simples e seguro. E tantas são as cavernas que existem agora, que o grande problema é escolher uma.

Essa escolha, porém, é ajudada pelos algoritmos e Inteligência Artificial que nos envolvem. Mal damos conta, caímos numa delas. E, uma vez lá dentro, tudo se torna mais mais simples porque as nossas razões coincidem com as impressões dos sentidos. E sentimo-nos acompanhados por outros prisioneiros que não nos questionam. Só não nos damos conta de estar em tele-companhia, mas livrámo-nos definitivamente da condenação á cicuta.

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