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Opinião: O imenso terreiro da criação

09 de abril às 11h11
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“Imenso” foi o claustro do Convento de São Francisco. O público disposto entre as arcadas, os bailarinos entrando e saindo de “cena” ao som da 5.ª Punkada, o sol a iluminar o primeiro quadro de TAKE A SEAT, a “conferência dançada” sobre cadeiras e os humanos que as imaginam, as fabricam e as usam. A “culpa” do encontro foi da Associação Há Baixa, que desafiou a coreógrafa Madalena Victorino (Prémio Universidade de Coimbra 2017 ) a juntar gente desta Cidade numa atividade artística.
Madalena trouxe consigo duas bailarinas e um músico, Coimbra somou-lhes gente da APCC, do GEFAC, do TEUC, do CITAC e mais quem quis aparecer. A convocatória referia que “IMENSO (do verso de Luís de Camões ‘Pode um desejo imenso’) é uma viagem que toma a cadeira de rodas e a cadeira como objeto simbólico para atentar sobre quem não pode sair de uma cadeira e quem, pelo contrário, usa a cadeira como lugar do dizer artístico. Um encontro entre pessoas rolantes e pessoas caminhantes para lembrar que a deficiência é também um lugar de poder, de desejo e de comunicação de uma condição que deve deixar a sua invisibilidade e indiferença”.
À vida o que é da vida (já se sabe), mas Madalena Victorino e os artistas do chão do Convento provaram que quem caminha numa cadeira usa o que tem (o que é) “como lugar do dizer artístico”. Que o diga o vocalista da 5.ª Punkada, ali convertido em coreógrafo, que ocupou o espaço todo do antigo refeitório dos frades guiando os passos dos bailarinos-de-pé-no-chão; que o diga cada um dos bailarinos todos, usando o corpo como se fosse um instrumento musical – a cada um seu timbre, a cada qual um vocabulário. “Todos diferentes, todos iguais”, dizia o velho e bem-intencionado slogan, mas mal. Todos diferentes, todos diferentes – isso sim – envolvidos por igual no exercício coletivo da criação artística.

“No final houve dança das cadeiras – da boa – no baile que a 5.ª Punkada abrilhantou (como se dizia antigamente). No ecrã do velho refeitório ficou a imagem de uma cadeira de plástico abandonada entre as ruínas de um campo de batalha (daqueles que se vêm espalhando nas terras do nosso mundo). Há cadeiras que são objetos de salvação. E há as que são iguais às armadilhas – haja quem recuse sentar-se nelas”

Deteve-se a coreografia para dar lugar à “conferência”, assunto de conversa e powerpoint, as ilustrações das cadeiras da História em desfile no ecrã e “ao vivo” por todo o refeitório. As histórias das cadeiras de pés e de rodas ditas por quem as usa e conhece, umas de resina, outras de metal; umas de empilhar, outras de dobrar; umas mais comuns, outras mais surpreendentes; umas lá de casa, outras de outras casas. E os nomes de quem as desenhou para que fossem chão também: Eero Saarinen, Harry Jennings, Le Corbusier, Stephen Farfler, Verner Panton.
Nunca terminaremos a discussão sobre o papel da Cultura na vida da comunidade, do mesmo modo que dificilmente chegaremos a um consenso acerca da importância da Arte na construção dos olhares. Seja como for, importa reter que a experiência estética é sempre o lugar que muda de cadeira – umas vezes observa, outras vezes mostra, quase sempre dialoga. Não nos livraremos ainda da discussão de ser a Arte (a Cultura) uma despesa ou um bem de primeira necessidade. Mas não haja dúvida de que IMENSO só existiu porque houve acesso àquele terreiro de vivências (metáfora, afinal, do que tem de significar ‘política cultural’).
No final houve dança das cadeiras – da boa – no baile que a 5.ª Punkada abrilhantou (como se dizia antigamente). No ecrã do velho refeitório ficou a imagem de uma cadeira de plástico abandonada entre as ruínas de um campo de batalha (daqueles que se vêm espalhando nas terras do nosso mundo). Há cadeiras que são objetos de salvação. E há as que são iguais às armadilhas – haja quem recuse sentar-se nelas.

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