Opinião: Aljubarrota

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O governo demissionário quer sair de “cara lavada” e, para tanto, pagou 74 mil euros por uma reformulação da sua imagem institucional, criando um novo símbolo, justificando que é um mais sofisticado e ecologicamente consciente. Na minha opinião, contrária à do governo, o que se fez é um desrespeito institucional, pois a alteração agora conhecida contraria a nossa tradição, desvaloriza a nossa história e o simbolismo que o anterior símbolo envergava.
O símbolo nacional, agora substituído, era uma representação com significado, capturava a essência do património português. A substituição desse emblema por três formas geométricas é uma simplificação excessiva e um apagão da nossa identidade enquanto comunidade. As formas geométricas são um despejo da riqueza histórica e cultural que um símbolo nacional deveria exibir. Esta alteração, a que chamam de progressista e ecologicamente consciente (vá-se lá saber o que isso é!) é mais uma machadada na percepção que se obtinha do símbolo anterior. A simplificação não é mais do que uma fotografia instantânea, para ser vista de relance, sem demora ou contemplação.
Modernizar não pode ser esquecer que a tradição e a história desempenham um papel crucial na construção da identidade nacional. Ser progressista não é deixar de ler, ouvir e falar. Os símbolos nacionais são mais do que meras representações gráficas. Eles carregam valores e memórias coletivas. A mudança operada no símbolo nacional de Portugal para três formas geométricas pode ser vista como uma decisão apressada e afrontadora da preservação da identidade nacional, um conceito que merecia mais respeito. A esfera armilar, os 7 castelos, as quinas e as chagas de Cristo significam algo, representam o povo português. Figuras geométricas que, para além das cores, nada permitem interpretar, não são conceitos.
De visita a Aljubarrota, escreveu Miguel Torga nos seus diários, a 22 de Março de 1983: “Visita compenetrada à capelinha de S. Jorge e ao campo da batalha. De vez em quando faz bem retemperar o patriotismo nos lugares onde ele tem mais legitimidade. E em Portugal não há outro tão significativo como este. Aqui já não foi a ambição que terçou armas. Foi a liberdade que não se deixou vencer por nenhum argumento.”

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