Opinião: A vida analógica

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O Natal, como a vida, é analógico. É físico e sensorial. É corpo. É musgo terroso. É presépios de figurinhas de barro pintado. É frio. É família à volta da lareira. É mesa posta. É rabanadas. É filhoses de abóbora e bolo rei. É memória de berço de palha e do bafo terno de animais domésticos. É o aconchego fraterno da missa do galo. É o calor dos abraços na noite gélida. É a alegria longa das prendas ofertadas. É dezembro incendiado. É raiz.

Não há Natal digital. Pois não há vida digital. Nem o real é numérico.
Em Enid Blyton não há lugar para tamagotchis. Os Sete não existiriam sem o Toy. Nem Os Cinco sem o Tim.

O admirável novo mundo digital é avesso ao amor. O correio eletrónico não substitui a rugosidade do papel, a hesitação da tinta, a rasura no texto, a emoção da caligrafia. Nem a ansiada espera do carteiro.

As cartas de amor manuscritas, como as de Kafka a Milena ou as de Pessoa a Ofélia, comovem o ente amado não pelo conteúdo – são todas ridícula e igualmente únicas – mas pelos particulares traços que tornam impermutável o sujeito amoroso: o desenho da letra, a geometria da escrita, o óleo do carimbo postal.

Os chats de conversação online tornam o enamoramento impossível. Porque alisam a tensão do encontro e abolem os rituais da sedução. Ao namoro eletrónico faltam o furor, o rumor, o rubor e o temor do encontro face a face. Não há amor digital.

O admirável novo mundo digital é avesso ao tempo, ao passar do tempo. O universo numérico congela a vida no momento presente, busca a intemporalidade da juventude eterna. Os espelhos – ecrãs devolvem-nos a ambição e o retrato sem grão de Dorian Gray.

No mundo digital não há velhos e amarelados álbuns de fotografias de rostos difusos e vagamente familiares: os nossos, anos atrás, em paisagens desbotadas, que a usura do tempo e da memória vai apagando.

O mundo analógico, o mundo real das experiências vividas, é um mundo de memória e de esquecimento, projetado para o futuro. Não há futuro sem memória. Mas também não há futuro sem esquecimento.

O mundo digital é um mundo de memórias armazenadas em contínuo looping. É impossível viver num estado de memória em permanente carne viva.
É impossível viver num mundo sem longos passeios ao domingo.

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