bagagem d’escrita O vício do comboio (parte I)

Posted by
Spread the love

Desde o início das minhas viagens que o comboio tem sido o meu meio preferido de percorrer o mundo. Tinha 19 anos quando fiz o meu primeiro inter-rail, aquele bilhete tão precioso que nos permite usar e abusar do comboio num determinado conjunto de países da Europa por um espaço máximo de um mês. Ainda me lembro da primeira vez que apanhei o Sud-Expresso, o mítico comboio que faz a ligação entre Lisboa e Paris. Detinha-se por uns instantes em Coimbra-B às 18:30, momento em que subiria a bordo. Nos seus corredores apinhados de gente e bagagens dos mais diversos feitios, tentava arranjar um cantinho para mim e para a minha mochila. Estes passageiros ainda hoje têm algo que os distingue dos demais. Tanto no estreito corredor como nos compartimentos, encontra-se desde o emigrante que volta para o trabalho ao viajante de fato e gravata que vai em negócios para o estrangeiro, ou mesmo o turista que inicia o seu périplo pela Europa.
Já o Lusitânia Comboio Hotel é diferente. A ligação entre as duas capitais ibéricas encerrava em si um ambiente mais requintado. Aqui há mais “homens de negócios”. Não há vivalma de emigrantes ou turistas de mochila às costas. Dois dias depois dos atentados de 11 de março, apanhei esse comboio para Madrid e deparei-me com gente pouco dada ao prazer de viajar, salvo um grupo de orientais que jogava às cartas enquanto comia sandes de tomate.
As melhores recordações com que fico das lides ferroviárias não se prendem com os comboios em que o preço do bilhete esvazia as nossas carteiras. As melhores experiências, onde conheci gentes da mais variada ordem e feitio, mas com um grau de humanidade superior à média foram precisamente naqueles comboios que aparentam (e são) intragáveis para se viajar em longos percursos. Na Turquia, à exceção da linha que faz a ligação entre Ancara e Istambul, os comboios são de fraca qualidade, extremamente vagarosos e usados maioritariamente por gente de classes menos abastadas. Certo dia, entrei numa carruagem saturada de gente. Estava exausto, tinha sede e uma ferida no pé. Alguém me chamou do interior de uma cabine e me arranjou lugar para repousar. Eram duas famílias humildes que, espontaneamente, se prontificaram em ajudar-me. Sem me conhecerem de lado nenhum, deram-me água, fizeram questão de me dar pão com tomate e até me arranjaram um penso para o pé. Gente rica que tem uma carteira vazia.
No Egito, vi um comboio assumidamente de terceira classe. Estava lá escrito. Durante a noite, vejo passar um conjunto de carruagens apagadas e aparentemente vazias. Quando observei melhor, fiquei pasmado pois reparei que ia cheio de gente, às escuras e sem quaisquer condições. Nesse dia, sem ainda hoje perceber como, o comboio que tinha de apanhar estava com as reservas completas e consegui arranjar dois bilhetes negociando com um “mafioso” que conhecia alguém influente na estação. É uma daquelas relíquias de viagem mais valiosas que religiosamente guardo.
Por vezes, também há enganos. Quando estava em Amã, na Jordânia, lembrei-me de saber como seria apanhar o comboio para Damasco, a capital da Síria. A ideia parecia ser boa, mas mudei imediatamente de plano quando fui informado de que a viagem entre as duas capitais, numa distância de cerca de 300 quilómetros, demorada cerca de oito horas. Contas feitas, demorando por vezes muito tempo, indo apertado, tentado descansar no meio da confusão ou deparar-me com uma casa de banho que se resume a um buraco no chão, não há nada melhor do que viajar pelo mundo fora sobre os carris. É mais forte do que nós, é um vício.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.