Opinião: Mobilidade urbana: a cultura do carro

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O conceito de “mobilidade urbana” define a facilidade e eficiência com que pessoas e bens circulam nas cidades. Essa circulação pode envolver meios de transporte, como automóveis, autocarros, bicicletas, trotinetes, ou até simplesmente andar a pé.
As políticas de mobilidade procuram incrementar a acessibilidade geográfica a custos acessíveis e reduzir congestionamentos de trânsito e impactos ambientais, contribuindo para a criação de cidades mais eficientes e com qualidade de vida. Na formulação dessas políticas, devem-se considerar não só fatores técnicos (como a viabilidade de novos meios de transporte em relação à morfologia urbana), mas também aspetos culturais. As preferências de transporte, padrões de mobilidade e aceitação de novas infraestruturas estão profundamente enraizadas na cultura de uma comunidade. Entender e respeitar essas influências culturais é crucial para o sucesso na implementação de políticas e soluções de mobilidade eficazes.
Nas cidades mais desenvolvidas têm vindo a generalizar-se estratégias de mobilidade que assentam no desincentivo ao uso do automóvel (redução drástica da velocidade máxima, zonas de tráfego limitado, etc.), na promoção de transportes públicos de qualidade e na adoção de formas de mobilidade alternativas não poluentes. Barcelona e Paris, por exemplo, têm vindo a reorganizar o espaço urbano em torno do conceito de “cidade 15 minutos”, onde moradores podem encontrar tudo o que precisam, a essa distância temporal, a pé ou de bicicleta.
Em Coimbra, a preferência pelo uso do automóvel persiste, apesar de ser uma cidade de dimensão média que favoreceria formas mais eficientes de mobilidade. Esta “cultura do carro” resulta de um longo processo histórico e tem vindo a ser agravada pela ausência de políticas adequadas. Tomemos como exemplo a ineficiência do sistema de transportes públicos. A falta de autocarros em horário noturno incentiva residentes que trabalham por turnos à compra de veículo próprio. Os efeitos negativos numa parte do sistema propagam-se, gerando uma sequência de impactos adversos noutras áreas, com efeito bola de neve. Mais carros implica menos lugares de estacionamento, o que legitima a prática de estacionar no passeio, danificando as calçadas e criando obstáculos acrescidos a outras formas de mobilidade. Um emblemático exemplo deste enraizamento da “cultura do carro” é a recente requalificação da Calçada de Santa Isabel; ali investiram-se perto de 1,3 milhões de euros na construção de um passeio pedonal que, constantemente ocupado por veículos, se torna inacessível aos peões.
A transformação de hábitos enraizados é um desafio complexo, que exige tempo e enfrenta resistências. Trata-se, no entanto, de um requisito essencial para uma mobilidade urbana eficiente e sustentável. A introdução de novos meios de transporte, ainda que tecnicamente eficientes, pode fracassar sem essa necessária e profunda mudança cultural.

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