Opinião: Diplomacia dos Sabores

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Ao longo dos séculos, a influência da gastronomia portuguesa no Japão desenha uma tapeçaria rica de sabores e tradições culinárias entrelaçadas. No século XVI, os nossos navegadores desembarcaram nas terras do sol nascente, não apenas com mercadorias e espingardas, mas com um tesouro de ingredientes que moldaria para sempre a culinária deste país.
O açúcar, outrora exótico, tornou-se fundamental. Doces como o “konpeito”, pequenos cristais coloridos, são descendentes diretos da doçaria portuguesa. O pão, por nós introduzido, ganhou vida no “kasutera”, um pão-de-ló local. A batata-doce, com o seu sabor adocicado, enraizou-se na dieta japonesa, proporcionando uma revolução nos sabores.
No âmbito das técnicas culinárias, a fritura em óleo foi um catalisador de inovação. A “tempura”, com a sua leveza e crocância, é uma pérola originada na técnica de fritura trazida por aqueles navegantes intrépidos. Esta técnica não só adicionou textura, mas também abriu portas para a reinvenção de pratos tradicionais nipónicos.
A influência lusa não se limitou a ingredientes e técnicas, estendeu-se aos hábitos alimentares. A quebra do tabu budista de consumir carne foi marcante. O “kamo namban” (pato) e o “chicken namban” (galinha) são testemunhos vivos desta transgressão culinária que desafiou e enriqueceu as tradições gastronómicas neste país.
Ao longo dos séculos, esta fusão culinária tornou-se parte intrínseca da identidade nipónica e a adaptação refinada dos ingredientes e técnicas portuguesas revela-se numa simbiose única que vai além de uma simples miscigenação de paladares.
Costumo dizer aos meus colegas diplomatas estrangeiros que à mesa japonesa saboreamos mais do que pratos invulgares; experimentamos uma narrativa culinária que transcende fronteiras e séculos, unindo duas fantásticas culturas através da linguagem universal da comida. Esta simbiose é um testemunho vivo da diplomacia dos sabores, onde as fronteiras desaparecem e as histórias se entrelaçam num banquete de enriquecimento mútuo.
Assim, ao degustar cada prato, mergulhamos numa experiência que vai além do paladar, é um convite para compreendermos a história e a harmonia entre os Povos português e japonês. Neste banquete de sabores, celebramos não apenas a mestria culinária, mas a capacidade da comida de transcender diferenças, construindo uma ponte cultural que perdura através do tempo. É a magia que acontece quando a gastronomia se torna um veículo de entendimento e apreciação mútua.

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