Opinião: O funeral da esferográfica

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O meu Professor de Paleografia na FLUC, Torcato de Sousa Soares, chegou um dia ligeiramente atrasado à sala de aula e entrou com um pedido de desculpas: “Peço desculpa, esqueci-me do livro, mas eu digo a lição de cor”. Não se pretende diminuir a imagem do Professor, homem respeitável, mas apenas retratar um tempo em que o livro e a leitura eram ainda uma estratégia privilegiada de transmissão do saber.
Esta memória da Paleografia e dos manuscritos do passado, inacessíveis ao leitor comum, permite antever que os teclados de hoje, netos da Paleografia, poderão ter uma existência efémera. Camões bem avisou: “Todo o mundo é composto de mudança…Tomando sempre novas qualidades”, o que deixa admitir que as novas tecnologias, convertendo o som em texto, poderão dispensar os teclados e o papel.
No obituário da escola já repousam a pedra ou ardósia, o ponteiro, o quadro preto, o tinteiro, o próprio giz, e em breve poderão constar o papel, o lápis, a caneta, a esferográfica, todos objetos em risco de extinção. Escrever poderá tornar-se uma palavra do passado. Para quê escrever se posso ditar ou falar o que uma máquina automaticamente converte em texto? Para quê matar a cabeça com contas e tabuadas se a máquina de calcular resolve em segundos?
O fim das receitas em papel livrou-nos da indecifrável escrita “hieroglífica” dos médicos, agora com nova vida nas plataformas digitais do SNS. Um smartfone e um código permitem-nos aceder às prescrições, exames e medicação habitual. A escrita à mão tende a ser uma prática de outros tempos. O teclado e o computador são o equipamento central no gabinete médico, sem papel, e nada garante que o teclado material tenha futuro.
Estamos na transição global para o mundo digital, do computador e da internet. A escola, se quiser ultrapassar o seu atraso crónico, vai seguir o mesmo caminho e vai modernizar-se sem papel, porque é mais simples, mais prático e cumpre ao mesmo tempo uma exigência urgente do ambiente. Biliões de crianças e jovens devastam diariamente vastas florestas para manter a escola em papel. A imprensa desloca-se para o online e os livros convertem-se ao formato e-book. É o caminho incontornável para o mundo global.
As crianças de hoje já nascem com os genes das tecnologias e do digital. Aos dois anos, com os deditos no ecrã do smartfone, divertem-se a ver programas infantis. Os pais podem estar tranquilos porque elas ficam agarradas e não descolam. Assim acumulam experiência e aos cinco anos já ensinam os avós a lidar com as tecnologias.
Neste banho precoce de digital estão criadas as motivações e necessidades de aprender a ler e escrever, em teclado virtual ou material. Os deditos são treinados para clicar e não para pegar no lápis ou na caneta. O papel e o livro não entram neste jogo, está tudo desenhado no tablet ou no smartfone, que reúnem amigos distantes, com quem podem rir, brincar e trocar mensagens. E depois, há tantos jogos, canções e lengalengas que ensinam a conhecer as letras e algarismos, que desafiam a ler e a escrever, felizes, rindo e cantando.
A malvada pandemia foi uma bênção para acelerar este novo modo de relação. Quando a escola fecha as portas e impede a relação direta e presencial, inviabiliza o saudável convívio das crianças, tão enriquecedor, e a gestão presencial dos processos de aprendizagem, fica obrigatória a relação e convívio à distância. O digital e o online são a alternativa. As crianças e jovens passam a ser mais atores e menos espectadores ou meros ouvintes. O smartfone tornou-se um objeto de bolso obrigatório e o tablet um instrumento de trabalho insubstituível.
A Unesco aprovou o digital e o online nas escolas, mas preservando o convívio e a relação entre as pessoas, entre educadores e educandos. A educação é um processo de relação pessoal, se possível presencial. O melhor banho para o desenvolvimento das crianças não é o isolamento, é o convívio pessoal em presença. As crianças aprendem umas com as outras.
A Covid19 foi o motor das novas tecnologias, do digital e do online. Cresceram juntos. Foi a pandemia que acelerou um mundo novo sem regresso ao passado. Causou por isso a maior surpresa a reviravolta na Suécia, decretando o “back-to-basics” na escola, desligando o acesso ao digital, regressando à aprendizagem da leitura e da escrita em papel e o regresso aos livros físicos.
Discutem-se muito as razões desta viragem num dos países com mais elevadas taxas de eficácia na aprendizagem da leitura e da escrita. Se o governo argumenta com um ligeiro declínio, que atribui mais ao digital que à pandemia, não falta quem argumente que esta viragem se deve apenas ao saudosismo conservador de um governo de centro direita a regressar a práticas contrárias ao ambiente, à crise climática e ao digital. Tratar-se-ia de uma medida política não suportada pela investigação. O debate vai longo, ultrapassa as fronteiras da Suécia e recomenda muita reflexão para avaliar o impacto nas escolas e nas populações.
A preocupação maior não deve ser a das populações já imersas no digital, mas a daquelas que estão privadas desse benefício. O digital e o online são conquistas que importa ampliar e não coartar e em grande parte poderão contribuir decisivamente para levar a escola a todos, onde quer que estejam. O problema não está em ter, está em não ter acesso às tecnologias. A guerra não é contra os livros, que continuaremos a usar online e em papel. Se guerra existe é para tornar a escola um espaço moderno, em sintonia com o mundo em que vivemos, e dispondo dos instrumentos inteligentes que nos permitem aprender melhor e com maior autonomia, vendo os alunos como construtores das suas aprendizagens e não como meros recetores do pensamento alheio. O melhor conhecimento não é o que se recebe, é o que se constrói.
Não haja ilusões: ninguém poderá travar a força e o poder do digital e do online, que contam com um aliado fortíssimo: o mercado. A falta e a fuga dos professores serão aqui ótimos “aceleradores de partículas”.

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