Bagagem d’escrita: Viajar entrelinhas (Parte I)

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As nossas primeiras grandes viagens, algumas delas inesquecíveis, são realizadas ainda dentro das quatro paredes onde vivemos na nossa infância. Não se trata de levarmos a cabo uma “viagem à volta do meu quarto” como escreveu Xavier de Maistre em finais do século XVIII, mas aquelas que são movidas pelo nosso imaginário quando temos suficiente imaginação, curiosidade e vontade de partir e descobrir o que está para além do que o nosso horizonte alcança. Esse é o primeiro passo para nos evadirmos da nossa zona de conforto em busca de mundos desconhecidos, tal como a que Wang-Fo executou através da pintura em busca da sua salvação, segundo nos contou Margeritte Yourcenar.
O meu imaginário de viagem e do exotismo foi construído ainda antes da adolescência, quando tive contacto com os contos das Mil e Uma Noites, de Naguib Mahfouz. Deliciei-me ao fechar os olhos e a partir para bem longe, embrenhando-me em cenários paradisíacos através das histórias com que Xerazade ia entretendo o rei Xariar para assim preservar a sua vida. Foi também por esta altura que Phileas Fogg me pegou pela mão e me levou numa Volta ao mundo em 80 dias. Devo a Júlio Verne esta ideia da viagem também como um desafio e das peripécias que dão vida a uma história de quem faz essa travessia do Rubicão.
O manual de História do 7º ano de escolaridade deslumbrou-me pelas suas imagens das pirâmides do antigo Egito, os Jardins Suspensos da Babilónia, a Grande Muralha da China, a Acrópole de Atenas e toda a arquitetura romana, com especial relevo para o Coliseu da cidade que deu o nome a este povo que fez do Mediterrâneo o seu “mare nostrum”. Algumas páginas mais à frente, surgia a imponência dos castelos e dos mosteiros que se espalharam pela Europa e Próximo Oriente, antes de chegar aos mais belos exemplares da arquitetura românica e gótica, com destaque mais que merecido para esta última, pela beleza e graciosidade das suas construções que, ao mesmo tempo, eram um desafio do poder da construção humana em direção aos céus para chegar mais perto do seu deus.
No ano letivo seguinte, maravilhava-me com o que de melhor o Renascimento nos deu, bem como o Barroco ou o que se destruiu e construiu na época Contemporânea. Olhava para aquelas gravuras em tempos que nem se sabia o que era um computador, e muito menos internet, o que me levava à procura de mais fotos ou informações na biblioteca para assim me imaginar a vaguear por todos esses recantos que na altura me soavam a mágicos. Essa vivência foi de uma importância ímpar pois levou-me a estabelecer objetivos na minha vida. “Quero ir ali um dia”, pensava para comigo próprio, sabendo que nada nos é entregue de bandeja, e que faria assim todo o sentido estabelecer o quereria fazer na vida para poder açambarcar todo este mundo que os meus olhos tão sofregamente viam. Em menos de duas décadas mais tarde, tinha já cumprido a esmagadora maioria destes meus sonhos de menino.
Com a entrada no curso de História na Universidade de Coimbra todo este processo acelerou drasticamente o seu ritmo. O apetite abriu-se mais através das inúmeras páginas de livros e sebentas que tive de ler. Surgem as vivências com estudantes estrangeiros e coloca-se aquela questão que se assume incontornável: “Eu também quero ir estudar para o estrangeiro e viver num país que me preencha e que eu possa absorver até ao tutano” tornou-se a ideia reinante na minha cabeça. Partiria, assim, pouco mais tarde para Siena, em Itália, para aí estudar e viver ao abrigo do programa Erasmus ao longo de um ano letivo. E outro capítulo se abriria nestas andanças. (continua)

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