Opinião: Fados, Adufes e Guitarradas

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Vista da ponte de Santa Clara, Coimbra basta-se na parede de casas empoleiradas colina acima, na belíssima construção que a Universidade remata. Só entrando Ferreira Borges adentro é que se percebe a dimensão do burgo – ou descendo para a Praça Velha aonde a Baixa toda vai dar, ou subindo pela Porta de Almedina entrando no sistema circulatório que o tempo dos humanos, e respetivos passos, inventou.
Coimbra dispõe-se em camadas sobrepostas. E assim se vai mostrando devagar a quem lhe procure mais do que o bilhete-postal da saciedade turística superficial e apressada. Para já, não lhe tem sido fácil orientar-se na condição de destino turístico que não vai além de uma passagem rápida pela Joanina, uma selfie com a Tricana do Quebra Costas e – nos “pacotes” mais sofisticados – uma paragem em Santa Clara-a-Velha. A revelação do cenário, sendo o produto transacionável da indústria que Goscinny denuncia em “Asterix – O Domínio dos Deuses”, é afinal o mascaramento da Cidade-depositária da tanta Civilização.
Quando, há 10 anos certos, a UNESCO decidiu inscrever a Universidade de Coimbra – Alta e Rua da Sofia na lista de Património Mundial, não o fez para lhe dar viabilidade turística. Património Mundial da Humanidade é assunto antes de ser superfície. E assim é, também, no caso do Fado ou Canção de Coimbra que subiu ao palco do Pátio das Escolas em dia de comemoração. Subiu ao palco, mas não foi sozinho – levou consigo demais músicas e a poesia com quem foi ponto de partida e lugar de chegada ou, simplesmente, habitante por igual de um tempo de ser canção. Apenas e tanto porque ser Humanidade é sempre ser espelho que, num mesmo momento, revela e reflete.
“O que é que os adufes têm que ver com o Fado?”, perguntava-me um amigo, inconformado com a batida do membranofone da Beira Baixa emergindo do refrão de Guitarra da Toada Beirã, de Luís Goes. “Tudo”, respondi-lhe, mas poderia ter acrescentado: e sobretudo o tal ‘assunto’, além da superfície, percebido (e adotado) pela Guitarra e o Canto de Coimbra a partir dos sinais dos estudantes que, sendo de aqui, eram de-onde-tivessem-vindo; o ‘assunto’ que o barbeiro Flávio Rodrigues da Silva, sem ter sido estudante, deixou em Variações e Valsas tocadas pela Guitarra de Coimbra do cimo da escadaria da Sé; o ‘assunto’ que foi Trovas e Baladas de lutas acesas – em guitarras de Patos e Portugais, cantares de Zecas e Adrianos – recriando toadas e harmonias, urgências e intenções transformadas, por sua vez, em assunto de outros cantares; o ‘assunto’ que a guitarra elétrica aprendeu, que o piano moldou – o mesmo dizer noutra voz.
Distraiu-se, o meu amigo. No espetáculo, na introdução do tema “Portugal visto daqui”, foi dito que “eram tripeiros, beirões das serras, marafados, coriscos e demais ilhéus. Vinham da raia e da borda de água. Passados cinco anos perguntavam-lhes ‘de onde és?’, e respondiam ‘sou de Coimbra’. Cantavam saudades e chamarritas, viras e senhoras da póvoa. Depois tingiam-se de toadas, enredavam-se em guitarras, subiram as escadas da Sé para cantar na Serenata. O Fado ou Canção de Coimbra é os sotaques todos, as paisagens todas, as tantas maneiras de ser. A Canção que é só-daqui é, afinal, a Praça deste país”.
Haverá mais subido modo de ser Património da Humanidade?

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