Opinião: Casa assaltada, trancas à porta

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Casa da Escrita é nome próprio – do lugar onde a Escrita se instalou em meados do século passado, de compromisso renovado e alargado desde que o Município de Coimbra tomou posse, e encargo, do palacete que João José Cochofel habitou na velha Alta de Coimbra. A Casa da Escrita é um dos lugares essenciais deste país crescentemente conduzido pelo famoso algoritmo orientador das escolhas de quem, nele, se deixe enredar. Segundo um “Inquérito às práticas culturais dos portugueses” (https://gulbenkian.pt/noticias/inquerito-as-praticas-culturais-dos-portugueses/), levado a cabo no final de 2020 pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, 61% dos inquiridos afirmaram não terem lido um único livro impresso ao longo do ano anterior à entrevista, sendo que apenas 10% acedeu a livros digitais. O estudo revela ainda que “na sua infância e adolescência, a maioria dos inquiridos não beneficiou de estímulos à leitura gerados em contexto familiar. Nunca os pais ou qualquer outro familiar os acompanharam a uma livraria (em 71% dos casos), a uma feira do livro ( 75%) ou a uma biblioteca ( 77%); nem tão-pouco lhes ofertaram um livro ( 47%) ou os deleitaram com a leitura de um livro de histórias ( 54%)”.

Casa da Escrita é História – berço de muito pensamento escrito e depois impresso nas páginas da Vértice, da Gazeta Musical e de Todas as Artes, do Novo Cancioneiro e em tantas páginas mais; lugar de tertúlia visitada por nomes maiores das Artes (Eduardo Lourenço confiou à Casa parte da sua biblioteca); marco de reinvenção da Escrita que quis ser escultora do mundo.
Habilidosos malabaristas do empreendedorismo palavroso, em que Língua é sempre sinónimo de Lábia, inventaram recentemente uma “associação” de vendedores de “marcas” e avançam agora para a Casa da Escrita, sem democrática autorização. Na Cidade que fez da Escrita riqueza maior e universal marcador de existências, “curadores” desnecessários, que ninguém conhece, encontraram na Casa de Cochofel – espaço municipal que é pertença dos cidadãos de Coimbra – o cenário ideal para montar a sua barraca de venda de enganos (o merchandising da dita associação vende tudo – camisolas, sacos de viagem, sapatos – menos livros).

Não há, porém, nada para inventar. A Casa da Escrita existe, e vem cumprido uma missão necessitada (como tudo) de afinação, cuidado e proposta de quem lhe quer bem. Para além do que já é, a Casa precisa de ser contadora de histórias: as daquelas paredes, numa exposição permanente que dê a conhecer o edifício inicial e a Casa atual, concretizada a partir do estirador de João Mendes Ribeiro; as da vitalidade, a partir dali, do núcleo de Coimbra do movimento neorrealista; as dos homens e mulheres que ali conviveram e polemizaram; as dos movimentos literários em que Coimbra foi protagonista e do seu impacto nos frequentadores da Casa de Cochofel e na Literatura dos nossos dias.

A Casa da Escrita existe, está de pé e tem livros nas estantes. Precisa de articular riquezas com a Biblioteca Municipal, de abrir portas aos leitores, de revelar catálogo e espólio, de garantir o acesso presencial e digital aos leitores de tanta Escrita.
A Escrita precisa de futuro. Precisa da Casa da Escrita.

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